O Maior Desafio da Juventude Árabe

(Publicado também no Instituto Liberdade)

Após derrubar ditadores no Egito e na Líbia e obrigar governos conservadores a adotar reformas liberais, os jovens árabes devem ter em mente que seu caminho para uma sociedade mais livre está apenas começando.

Fizeram, por meio do que ficou por todo o mundo como Primavera Árabe, a maior revolução que se tem notícia desde que entramos na Era da Informação. Contagiaram jovens não só do norte da África e Oriente Médio, mas de todo o mundo. Foram os responsáveis pelas marchas dos Indignados na Espanha, manifestações no Reino Unido, passeatas no Brasil e mobilizações de tantos outros lugares. A partir de idéias e não de partidos ou políticos, sem recursos ou um planejamento de marketing profissional, mudaram o quotidiano mundial.

Ensinaram ao mundo que um movimento de verdade se faz com dois pilares principais: mobilização e informação.

Construíram, pela internet, uma rede de contatos que viabilizou passeatas de milhares e utilizaram os veículos internacionais de comunicação de forma brilhante, relatando de forma direta o que sofriam, como queriam viver e o que fariam para tal.

Contagiaram os organismos internacionais que, verificando a dedicação dos manifestantes, deram ainda mais credibilidade ao movimento, aumentando ainda mais sua rede de contatos. Tais organismos passaram, a partir daí, a globalizar suas informações e mobilização. A comunidade mundial foi cativada.

Ganharam a mídia e o coração dos cidadãos de todos os cantos do planeta e, como política se faz pela representação dos sentimentos individuais, acabaram por obrigar que políticos de todo o mundo os apoiassem em uma jornada das Nações Unidas e da OTAN pela paz e democracia no mundo árabe.

Venceram a guerra na Líbia, derrubaram o ditador egípcio, conquistaram reformas liberais no Marrocos, na Tunísia e tantos outros e ainda caminham para novas vitórias. Tudo fruto da união e do sonho pelo respeito aos direitos humanos.

Apesar de tanta luta, terão somente agora o maior desafio de suas vidas: fazer com que toda essa mobilização não se perca na construção do futuro de seus povos.

Derrubar ditadores e promover reformas não é suficiente. De nada adianta a queda de Mubarak no Egito se os militares, empossados desde então, continuam a promover o controle sobre a imprensa. De nada adianta a vitória rebelde na Líbia se o próximo governo permanecer no poder por novos 40 anos.

A juventude árabe deve continuar unida, mobilizada e aproveitando a credibilidade atingida para munir o mundo de informações. Deve dedicar ainda mais esforços agora para aproveitar o vácuo político criado para construir regimes democráticos que honrem mortos e feridos.

Precisam pensar, planejar e dar ao mundo novamente o exemplo de que não importa quão mal esteja o cenário, sempre há solução para os que se unem e colocam idéias na frente de pessoas.

Cabe à comunidade internacional, na sua parcela de responsabilidade pelo mundo globalizado, não se esquecer das vidas perdidas e do objetivo nobre deste povo que arriscou tudo o que tinha pelo direito à liberdade.

Devemos, a partir deste exemplo de democracia, refletir e definir em que tipo de mundo queremos viver.

Uma proposta eleitoral para problemas econômicos

(Publicado em inglês no Global Spinner)

No que pode ter sido a última tentativa pré-eleitoral em salvar a imagem dos Democratas na Casa Branca, o presidente Obama apresentou um projeto de US$447 bilhões prometendo um aumento considerável no nível de empregos dos Estados Unidos para os próximos dois anos.

Consistindo basicamente em uma série de isenções fiscais para folhas de pagamento e investimentos massivos em educação e infraestrutura, Obama utilizou toda a retórica que pode para desafiar Republicanos apontando trade-offs como a decisão entre isenções para empresas petroleiras ou para pequenos empresários que desejam empregar mais americanos. A questão, diferente de incitação à briga de classes, é “simplesmente matemática”, afirmou.

Três pontos de seu discurso ao Congresso merecem destaque:

1)Mas os milhões de americanos que estão nos assistindo agora não se importam com política. Eles têm problemas reais. Muitos passaram os últimos meses procurando empregos (…)” – Como em todo o discurso, uma forte retórica que garantirá aos Democratas utilizar eleitoralmente o resultado desta proposta. Caso não seja aprovada, afirmarão durante a campanha de 2012 que Republicanos se preocupam mais com política do que com os problemas da vida real.

2)Tudo que está aqui compõe o tipo de proposta que tem sido defendida por Democratas e Republicanos” – É verdade que muitos dos pontos apresentados deixaram Republicanos satisfeitos, mas os Democratas terão problemas nos próximos dias quando tentarão explicar como irão bancar estes US$447 bilhões. Obama apontou uma das possíveis alternativas sugerindo mais uma vez uma reforma no sistema tributário onde os mais ricos deveriam pagar ainda mais. Será que ele realmente pensa que Republicanos aprovariam isso?

3)Vamos trabalhar e mostrar ao mundo mais uma vez por que os Estados Unidos continua sendo a melhor nação da Terra” – Bom, se você não nasceu nos Estados Unidos, não preciso explicar. Certo?

O plano, em linhas gerais, não é ruim. Apresenta ideias fantásticas no corte de tributos para pequenos empresários que desejam empregar mais e levanta políticas de longo-prazo interessantes no desenvolvendo estrutural do país. Ainda assim, é um projeto caro que demandará novos e novos ajustes para ser financiado.

Vamos esperar pela resposta do Tea Party. Neste momento, são eles os fiéis da balança que decidirão o rumo econômico dos Estados Unidos – e do mundo ao seu redor.

O AI-5 do PT

A política brasileira é confusa e na maior parte das vezes controversa mas uma hora a máscara acaba caindo. Foi o que aconteceu neste início de setembro durante o Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores.

Depois de nove anos no poder, mesclando continuísmo com trapalhadas populistas, Lula e Dilma utilizaram o final de semana para exibir José Dirceu como troféu e profetizar sobre a regulação da imprensa.

Um tema estava entrelaçado ao outro. Usaram a denúncia da revista Veja, onde acusava o ex-líder do mensalão de ter criado um governo paralelo a partir de um apartamento em hotel de luxo em Brasília, para afirmar que a “imprensa marrom” estava cometendo crimes contra a privacidade para promover um golpe no “governo do povo”. Transformaram, sem pensar duas vezes, uma grave denúncia em inquisição anti-imprensa.

Fizeram a reportagem morrer e, não satisfeitos, usaram o presidente do PT, Rui Falcão, para trazer de volta à pauta a Lei de Imprensa que, durante a campanha, foi negada aos quatro ventos pela cúpula PTista – que inclusive a deletou de seu programa presidencial ao ver a péssima repercussão da idéia.

Na resolução política do Congresso do PT, o controle sobre os veículos de comunicação é colocado como um dos “desafios do momento”, dando como “urgente abrir o debate no Congresso Nacional sobre o marco regulador da comunicação social”. Afirmam defender a liberdade de imprensa e, se utilizando da conjunção “mas”, atacam “o jornalismo marrom de certos veículos”.

Ora, essa! A gramática é clara: conjunções adversativas (“mas”) “indicam uma relação de oposição bem como de contraste ou compensação entre as unidades ligadas”. Em outras palavras, a liberdade de expressão é “questão de princípio” do PT desde que não seja utilizada para criticá-los.

Caso critiquem, tais veículos de comunicação estarão criando “um clima de imposição de uma única versão para o Brasil” e promovendo “a crescente partidarização, a parcialidade e a afronta aos fatos”.

Assim sendo, os governistas acabaram por identificar como criminosos exatamente aqueles que apontam crimes. Resolveram denunciar exatamente aqueles que eram utilizados para denunciar o regime militar. Definiram a faxina pela ética como secundária, enquanto elegeram como alvo principal a caça aos que discordam. Criaram, a partir daí, o AI-5 do PT.

Neste sentido, caso o absurdo dos absurdos aconteça e a população brasileira permita que a resolução deste congresso se transforme em um dia no AI-5 do PT, será que os governistas perseguirão também o jornalismo pró-Dilma?