Palavras sob a mordaça da academia

Remeti o artigo “Disparidades regionais e concentração produtiva: possíveis políticas de desconcentração de renda para solucionar a herança do desenvolvimentismo intervencionista brasileiro” para a Revista Três Pontos, publicação científica da FAFICH-UFMG para estudantes de graduação.

No artigo, aprovado com bom grau como trabalho de conclusão de disciplina na UFSJ, descrevo, sob o ponto de vista liberal, a evolução da economia brasileira e, me utilizando de pesquisadores das mais variadas linhas da acadêmia, indico sugestões pautadas nas liberdades econômica e civil.

Por apresentar as falhas do modelo desenvolvimentista, linha favorita da revista, já esperava críticas. A resposta, no entanto, me surpreendeu.

Começaram a resposta afirmando que o artigo “não está bem redigido” e se “apresenta de modo incompleto e truncado“. Ok, aceito a crítica. Devo escrever mal… E continua, indicando que ele “não focaliza corretamente o tema das transformações estruturais da economia brasileira no século XX“. Bom… Qual seria o foco correto então? A tal verdade absoluta sobre a economia brasileira…? As ciências sociais viraram, a partir daí, uma exata. Me senti escrevendo para uma revista científica de engenharia.

O professor parecerista afirma ainda que o tema continua sendo foco dos trabalhos de diversos pesquisadores brasileiros. Concordo totalmente. Por isso o escolhi, né? Mas eles estão “engajados na reflexão sobre os efeitos sociais e econômicos perversos do capitalismo nacional“. Hein? Pois é… E nisso, o problema é que, segundo ele, “o autor do artigo [eu] não soube apresentar bem o debate sobre a lógica e as consequências do modelo nacional-desenvolvimentista que serviu de referência para a modernização do Brasil no século XX“.

Vamos ver se eu entendi. Eu não soube “apresentar bem o debate sobre (…) o modelo nacional desenvolvimentista” por que não estou alinhado com os pesquisadores dos “efeitos sociais e econômicos perversos do capitalismo“. Er… Em um debate costuma-se ter posicionamentos adversos, não?

Bom, continuando… Meu artigo revelou meu “conhecimento limitado e precário da história do Brasil“. E aí, professores da Economia da UFSJ? Acho que a culpa é de vocês que me aprovaram. Pelo menos não é de todo mal: ele assume que eu me utilizei de “autores cuja contribuição para este conhecimento é essencial [contraditório, não?], como é o caso de Celso Furtado e Wilson Cano [dois desenvolvimentistas]”. Ou seja, apesar da graduação quase completa eu não sei nada de economia brasileira mesmo tendo elaborado uma crítica ao modelo desenvolvimentista citando, inclusive, dois dos seus maiores autores. Entendi…

Por fim, o parecer “não recomenda sua publicação” afirmando que o artigo “não sistematiza bem as análises” nem “acrescenta elementos novos para o estudo (…) do capitalismo brasileiro“.

Uma salva de palmas à Revista Três Pontos e ao professor parecerista.

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1 thought on “Palavras sob a mordaça da academia”

  1. Receber recusa em revistas acadêmicas é normal. Pareceristas apresentam justificativas das mais diversas, às vezes com razão e às vezes sem. Mas você não deve simplesmente se conformar com o parecer. O ambiente intelectual é feito de debates, réplicas, tréplicas etc. Você deveria responder ao parecerista. Como ele é anônimo, faça isso através dos editores da revistas. Você pode elucidar posicionamentos, críticas e discordar daquilo que acha necessário.

    Se preferir ainda, poste o seu texto por aqui ou em algum lugar on-line. O caráter público do debate intelectual é uma de suas maiores qualidades.

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