As três saídas para Humala: Chavismo, Lulismo ou Liberalismo?

O povo peruano, como afirmou o jornal Washington Post na vespera da eleição deste domingo, foi obrigado a tomar uma “decisão infeliz”. De um lado, a filha de um ditador condenado à 25 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos. Do outro, um líder (para)militar cujo pai, rebelde radical, proclamava a “superioridade do povo indígena”.

Ambos tentaram apagar seus passados. Ambos cercaram-se de figuras que representavam o oposto daquilo que estavam acostumados a defender. Venceu Ollanta Humala, auxiliado pela mesma equipe que ajudou o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva à transvestir seu passado.

A diferença foi mínima. Algo entre um e dois porcento de toda a população que ultrapassa os 30 milhões de habitantes. Talvez pelo antagonismo entre passados e propostas. Talvez pela falta de escolha. Precisar é praticamente impossível.

O que é possível é perceber claramente que ganhou o que vestiu a melhor fantasia. No caso, um terno de corte italiano, um perfume francês e, nos momentos oportunos, uma bíblia embaixo do braço. Nada diferente ao que deu a Lula a vitória em 2002 no pleito brasileiro após anos e anos se mostrando como realmente era.

Outro ponto que se percebe é a clara mobilização dos setores democratas – incluindo organizações internacionais e celebridades locais – na tentativa de pressionar o ex-socialista indigenista e atual democrata Humala à garantir as liberdades individuais e o desenvolvimento de uma das economias que mais cresce na América Latina.

O Nobel peruano Mario Vargas Llosa, referência liberal, disse estar contentíssimo com a vitória e acreditar que a democracia é possível. Apoiou o novo presidente durante a campanha, dando a esta um tom não-Chavista e agora cobra, de forma sutil, sugerindo a também liberal Beatriz Merino para presidente do Conselho de Ministros. Seria uma forma de dar tranquilidade aos que ainda alimentam uma enorme desconfiança à respeito de Ollanta, como afirmou em entrevista para o jornal La República.

Fernando Rospigliosi, ex-ministro e atual analista político, não é tão otimista mas, como o Nobel supracitado, faz a sua pressão para a composição governista, afirmando que a única maneira de garantir estabilidade seria iniciar os trabalhos nomeando um Ministro da Economia ortodoxo. Entre os favoritos para o cargo, a agência Reuters elenca Oscar Dancourt, Kurt Burneo, Daniel Schydlowsky e Santiago Roca. Todos ligados ao ex-presidente Alejandro Toledo.

Nós próximos dias o presidente Ollanta Humala anunciará uma das três únicas saídas que tem: tirar a máscara e retornar ao Chavismo, orgulhando seu pai; seguir a cartilha do socialismo vegetariano de Lula, pagando a dívida feita durante a campanha; ou aderir de verdade ao discurso liberal adotado realizando um governo nos moldes do que defende o Nobel Mario Vargas Llosa e a comunidade democrata.

Enquanto isso, resta a dúvida para o povo brasileiro: após a eleição de Lula em 2002, descobriu-se que quem pagava a conta do marketing PTista eram os cofres públicos. No Peru sabemos que a equipe contratada foi a mesma. Quem terá sido o financiador da vez?

*Este artigo foi publicado também pelo Instituto Millenium.

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