Na lata de sardinha: Um dia de ônibus em BH

O transporte público no Brasil nunca foi uma maravilha. Não só no Brasil. Em toda a América Latina e, avançando um pouco mais, em todo o mundo subdesenvolvido – ou periférico, como preferir. Não que andar de carro, moto ou bicicleta seja muito melhor. Pelo contrário: quando não é arriscado, é caro; quando não é caro, é arriscado. Mas enfrentar um ônibus, um trêm ou um metrô está pra lá de complicado.

Não comento nem os casos do interior onde, apesar de muitos bancos para se sentar, se paga um absurdo por viagens que muitas vezes duram menos de dez minutos. Fora o monopólio, imperativo em mais de dois terços de nossas cidades brasileiras – em geral comandando pela corrupção que abraça empresários, legisladores e executivos.

Foco no caso de Belo Horizonte – e acredito englobar também boa parte das metrópoles brasileiras. Quantos de vocês já andaram de ônibus em uma cidade grande? Considerando viajar em pé algo normal, quantos já tropeçaram em outro passageiro ou tiveram que pedir licença para se encaixar enquanto faziam de tudo para não se espatifar no chão?

Não reclamo do difícil acesso à determinadas localidades. Muito menos do preço – por mais que devesse. Não apelo conclamando o trabalhador sofrido à se revoltar contra o status quo burguês dos empresários de transportes públicos. Bebados, estudantes, crianças, idosos, desempregados, benefíciarios do Bolsa Família… Todos! Todos, sem excessão, pagam passagem e passam por isso. O trabalhador sofre, claro, mas não sofre sozinho. Nem tem mais direitos que os demais. O absurdo é um indivíduo pagar pelo serviço e ser atendido desta maneira.

Aí viriam os esquerdistas: “nacionalizem o transporte público! Deixem que o Estado faça a gestão”! Mas, ora! A culpa é exatamente da gestão do Estado que limita a concorrência dos transportes públicos!

Ou vocês pensam que só existe uma empresa para cada trajeto por que as demais empresas resolveram não concorrer? E que só existe um tipo de ônibus e um único preço por que todos caíram na coincidência de querer ofertar da mesma maneira? A quantidade de linhas, a oferta, o preço… Tudo! Tudo regulação do Estado!

Então, querido passageiro, quando se sentir como numa lata de sardinha dentro do transporte público de sua grande cidade, não culpe o motorista – que por mais que seja barbeiro, não tem culpa -, o cobrador e, muito menos, o empresário. Culpe o prefeito e os vereadores que você mesmo elegeu.

Nesta última viagem de ônibus – personificando a sardinha por algo em torno de 40 minutos – outra coisa me veio em mente: se para mim está ruim, imaginem para os portadores de necessidades especiais. Mas vamos discutir isso numa próxima oportunidade.

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 10.0/10 (1 vote cast)
Na lata de sardinha: Um dia de ônibus em BH, 10.0 out of 10 based on 1 rating