Al-Assad e a semântica da diplomacia

(Publicado pelo Jornal do Commercio e pelo Expresso [Portugal])

Em 1952, o americano Frank Chodorov foi brilhante ao escrever em “One is a Crowd” que “sociedade é um conceito coletivo e nada mais”. Segundo ele, diferente de termos como a família ou uma multidão, não existem grandes laços que possam representar um consenso na sociedade.

Famílias, segundo ele, existem pelos laços entre seus membros. Uma multidão agrega pessoas com um objetivo comum, bem como assistir uma palestra ou um jogo de futebol. A sociedade, por outro lado, é o conjunto de todos, reunindo do médico ao fazendeiro e do padre ao ateu.

Por tal motivo, seria impossível dizer o que pensa a sociedade. Ou, em um caso similar, o que pensa ou deseja um país. Ninguém vê a sociedade ou a Argentina andando pelas ruas, fazendo compras ou votando para um determinado candidato. Quem o faz são os indivíduos, estimulados por motivos próprios, podendo ou não estarem inclusos em outros conceitos menos gerais.

Um exemplo claro disso, como lembra Chodorov, é o caso alemão. Não eram todos os alemães que eram nazistas, como se supõe ao mencionar a “Alemanha nazista”. Existia uma parcela da população que realmente concordava com as aberrações de Hitler e seu partido, é fato. Mas também existiam indivíduos que discordavam de seu governante ou que não possuíam nenhuma opinião sobre este.

O mesmo pode-se dizer de rótulos como o “extremismo do Irã” ou até mesmo da afirmação de que os “Estados Unidos estavam em guerra contra o Iraque”.

O extremismo, na verdade, é da cúpula governista iraniana, enquanto a guerra foi uma ofensiva do governo americano – e suas forças armadas – contra o governo iraquiano, então liderado pelo ditador Saddam Hussein.

Estas considerações podem se parecer com um debate irrelevante sobre semântica ou com a tentativa de se iniciar uma polêmica sem finalidade prática. No entanto, levando em consideração a última guerra no Golfo, duas simples perguntas podem provar a importância do assunto: Todos os militares que entraram no campo de batalha estavam lá voluntariamente? Todos os mortos – de ambos os lados – eram adeptos das visões políticas de seus governantes e representavam um perigo para a civilização?

A resposta, claramente negativa, deveria despertar certo peso na consciência daqueles que autorizaram os ataques. Indo além, se esta questão afeta democracias, imagine o que não pode causar em regimes ditatoriais.

Ao descrever a sociedade – ou um país – como se este fosse uma pessoa, acabamos caindo no erro de julgar cada membro deste grupo pela impressão que temos do todo, cometendo enganos que, dependendo da proporção de cada ação, pode gerar miséria e morte de inocentes.

Os recentes debates do Conselho de Segurança da ONU são um claro exemplo deste mau-entendido semântico. Quando governantes chineses e russos se unem contra os diplomatas das potências européias e dos Estados Unidos, acabam legitimando que o governo sírio, presidido por Bashar al-Assad, seja a voz única de seu povo.

Fazendo isso, diferente de meramente frear uma nova ofensiva militar na região, acabam por transformar o ditador em uma unanimidade intocável que responde por todos os residentes da Síria, incluindo até mesmo aqueles que prende e assassina por discordar de suas idéias.

Felizmente, em um mundo onde o realismo militarista e os erros semânticos imperam, indivíduos vêm fazendo a diferença. Foram eles que, guiados pelos bons ventos da Primavera Árabe, venceram na Tunísia e continuam sua luta para vencer no Egito. Serão eles que, apesar da guerra de egos no Conselho de Segurança da ONU, mostrarão novamente sua força e vencerão também na Síria.

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