A paz tornou-se política lucrativa

(Versão adaptada de meu artigo em inglês “A Small Word”, publicado também pelo Diário de Natal)

Ao ler alguns dos maiores jornais do mundo, é possível perceber que nosso planeta não está mais tão grande quanto já fora um dia. Uma passada de olho pelas páginas de opinião de periódicos como China Daily, The Economist, Hurriyet Daily News, New York Times e Guardian acaba assustando até o mais otimista dos internacionalistas. Não só seus assuntos são similares, como também suas abordagens e conclusões. Durante os últimos dias – e provavelmente também as últimas semanas -, o assunto mais discutido por eles foi o diálogo entre os Estados Unidos, a Europa, a China e o Irã. É curioso notar que editores e analistas não têm comentado a possibilidade de uma intervenção militar ou os polêmicos debates no Conselho de Segurança da ONU, mas sim os potenciais lucros e prejuízos que seus laços econômicos poderiam trazer.

Como o presidente do Conselho Europeu, Van Rompuy, escreveu para o China Daily, “o mundo está passando por mudanças rápidas e re-ajustamentos causados pela globalização, além de uma acelerada aproximação entre países e pessoas trazendo todos para o mesmo lado”. O cientista político Garton Ash demonstrou isso no Guardian ainda mais claramente, ao afirmar que inclusive a dinastia chinesa tem se tornando mais global, uma vez que a filha de seu vice-presidente e futuro líder Xi Jinping estuda na universidade de Harvard enquanto sua irmã mora no Canadá.

Nessa linha de globalização de lucros e prejuízos, nem os radicais islâmicos foram deixados de lado. Dennis Ross, ex-assistente de Barack Obama para o Oriente Médio, escreveu para o New York Times que o “Irã está pronto para conversar”.

Diferentemente do que a frase pode sugerir, Ahmadinejad não mudou de ideia sobre o perigo ocidental. Pelo contrário, está com medo dos prejuízos que a economia de seu país terá ao prosseguir nesse afastamento do eixo Europa-Estados Unidos. Como Ross explicou, o “Irã não pode mais negociar ou obter crédito denenhum banco internacional, o bloqueio americano maximizou a desvalorização de sua moeda nacional” e Bashar al-Assad, seu último grande parceiro, está cada vez mais longe do governo Sírio, já que a Primavera Árabe e as sanções internacionais se intensificam.

O mundo está ficando menor. E isso não é consequência de uma possível cultural global. Mesmo demandando padrões semelhantes de qualidade de vida, cada cidadão do mundo continua possuindo sua própria religião, seus hábitos pessoais e seu histórico familiar. Ainda assim, o comércio internacional e a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo acabaram por unir as pessoas.

Na prática, isto é fácil de ser percebido. Enquanto um executivo alemão usa seu guarda-chuva chinês em Londres, uma dona de casa russa está assistindo à sua novela brasileira preferida em uma televisão feita nos Estados Unidos. Como Thomas Friedman analisou em seu best-seller O mundo é plano, todas as nações se tornaram tão dependentes do comércio internacional que fechar fronteiraspassou a ser uma das piores coisas que qualquer governante poderia fazer.

Nesse sentido, guerras passaram a se tornar caras demais não apenas pelo alto custo de novos armamentos, mas pelos prejuízos financeiros que a quebra no comércio poderia trazer. A partir daí, a paz passou a ser vista como uma política lucrativa. É exatamente por isso que o Irã está pronto para conversar. É por isso que Xi Jinping está visitando os Estados Unidos. E, principalmente, é por isso que os líderes globais do futuro precisarão achar novas soluções para substituir suas políticas militaristas.

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