Diploma para quê?

(Publicado pelo Valor Econômico [29.03.2016])

Graduar-se no ensino superior brasileiro já foi algo de muito prestígio. Atualmente a situação está se deteriorando. Por um lado, a questão é positiva: a quantidade de vagas disponíveis se multiplicou permitindo que uma grande massa passasse a ter acesso às faculdades públicas e privadas. Mérito para programas governamentais como o FIES, PROUNI e REUNI. Por outro lado, a rápida expansão quantitativa deixou a desejar no quesito qualidade. São comuns faculdades cuja única função é imprimir diplomas, sem a mínima preocupação com o conteúdo a ser ensinado.

Uma das formas de se perceber esta defasagem está na análise da evolução de dados como a produtividade do trabalhador e a competitividade brasileira em setores que demandam profissionais altamente qualificados. Vamos entendê-las por partes.

A produtividade média do trabalhador resulta da divisão da produção total de uma economia pela quantidade de trabalhadores. Nas décadas de 1950 e 1960, nossa produtividade crescia a uma média de, respectivamente, 3,65% e 4,76% ao ano. A quantidade de anos estudados era mínima. Algo comparável ao Haiti. No entanto, a rápida industrialização brasileira e o êxodo faziam com que o antigo trabalhador rural aumentasse o valor de sua produção ao virar operário nas fábricas dos grandes centros urbanos.

Na década de 1990 a média era 1,70% ao ano. Entre 2000 e 2010, passou para 1,17%. Isto significa que, mesmo com a grande quantidade de novos formandos, programas como o FIES, PROUNI e REUNI não conseguiram ao menos superar os anos 1990, década em que o Brasil contraiu sua economia (e seu gasto em educação) para resolver o problema da inflação.

Se isto já é preocupante, o alarme aumenta quando percebemos o que ocorreu com nossa produção. No ano 2000, 58,4% das exportações brasileiras eram compostas de produtos manufaturados. Em 2014, este número caiu para 34,8%, melhor apenas que o índice atingido em 1978. Isto significa que o Brasil é hoje mais atrasado que nos anos 2000, 1990 e 1980, voltando a ser um país primário como na década 1970.

Mas com essa nova leva de universitários incluindo os milhares de jovens formados no exterior pelo programa Ciências sem Fronteiras, é imaginável que estas poucas manufaturas exportadas sejam produtos com alta tecnologia agregada. Pelo contrário! Em 2001, 19,24% de nossas exportações eram compostas por bens intensivos em pesquisa e desenvolvimento. Em 2014, o número caiu para 9,63%. Em termos práticos, deixamos de fazer aviões para exportar minério de ferro.

Mas se estamos tão mal assim… A solução é investir mais em educação? Não! Dou um tiro no meu próprio pé, como professor, afirmando que o investimento é suficiente e até maior do que necessário. Precisamos de novas leis para incentivar a pesquisa de alta tecnologia nas empresas? Também não! A legislação brasileira sobre inovação é recente e extremamente moderna. Além do mais, existem diversas linhas de financiamento exploradas de maneira muito primitiva até o momento.

Em primeiro lugar, um empresário só se arrisca a investir em inovação se o risco compensar o lucro. Atualmente não é nossa realidade. A economia brasileira é fechada. Produtos estrangeiros são caros e demoram a chegar. Neste cenário, vale à pena ter produtividade baixa e de má qualidade, já que a competitividade não é tão acirrada. É por isso que nos anos 1990, quando abrimos a economia e cortamos os subsídios, nossas empresas atingiram seu pico de investimento em pesquisa e desenvolvimento.

É verdade que este remédio é amargo. Apesar de ganhos na produção de bens com alta tecnologia agregada, fomos atingidos por uma maré alta de desemprego como consequência das falências geradas pela enxurrada de produtos estrangeiros no país. A amargura, no entanto, é passageira, já que força a classe empresarial a investir em competitividade e à crescer de forma sustentável visando o longo prazo. É diferente das políticas protecionistas que, apesar dos altos ganhos de curto prazo, acabam gerando crises como a que vivemos atualmente.

No lado da educação, devemos aprender que o diploma em si não vale nada. Precisamos deixar de lado a cultura de fazer faculdade para prestar concurso. Pior, devemos parar com nossa mania de delegar poderes aos conselhos federais que cada vez mais criam reservas de mercado para determinadas profissões – como se o diploma, em si, fizesse de alguém um profissional mais competente para exercer funções.

É por conta desta fixação em diplomas que se tornou comum ouvir em empresas que o que é aprendido em sala de aula pouco vale no mercado de trabalho. Ainda assim, é importante para diversos empresários ter em seus quadros alguém com registro professional de engenheiro, advogado, administrador, estatístico, nutricionista, etc. Sem ele, muitas atividades econômicas não podem ser realizadas, impedindo a viabilidade do négocio.

A situação se altera quando as empresas passam a buscar um nível de especialização que atualmente não é demandado. Passa a ser contratado não o profissional quem possui apenas uma assinatura, mas o conhecimento específico que o torna capaz de aumentar a competitividade do negócio. Neste contexto, universidades são pressionadas por seus clientes, os alunos, a deixar de ofertar apenas um papel mas, principalmente, habilidades específicas que poderão garantir uma colocação no mercado de trabalho. Isto demanda das instituições de ensino professores mais qualificados, laboratórios e centros de pesquisa mais avançados e, principalmente, um processo de otimização no gerenciamento de seus recursos financeiros.

Mais uma vez, dependemos do remédio amargo que é a abertura econômica. Como dito, não é um caminho fácil. Mas é a partir dele que construímos uma nova realidade econômica onde reformas específicas, sejam elas públicas ou privadas, tomam por foco não a proteção de interesses especiais mas o aumento contínuo da valorização do conhecimento e da competitividade.

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