Um verdadeiro revolucionário cubano

(Publicado pelo jornal Hoje em Dia em 25/07/2012)

Confesso ter ficado perplexo ao ter notícia na noite deste domingo (22) do falecimento do cubano Oswaldo Payá. A forma com que se deu a fatalidade certamente contribuiu para o sentimento. Quem imaginaria que, em uma ilha onde os veículos mais novos são da década de setenta, um acidente de carro poderia matar um de seus mais notórios ativistas dos direitos humanos?

Tomei conhecimento do fato pelo Twitter da também militante Yoani Sánchez. Em uma de suas primeiras mensagens, por volta das dezoito horas no fuso de São Paulo, afirmou ter conversado com Ofelia Acevedo, esposa de Payá, tendo confirmado a existência de um acidente de carro em La Cabina.

Uma hora depois, publicou mensagem notadamente emocionada: “Todavia tengo la esperanza de que sea un malentendido, un error. No puede ser!!!Oswaldo Payá no puede haber muerto!!!!!!!” A partir daí, a notícia se espalhou e passou a ser veiculada na primeira página dos principais portais de notícias do planeta. Nada diferente do esperado, dado a expressividade de seu trabalho pela democracia em Cuba.

Meu primeiro contato com a história do ativista aconteceu em agosto de 2009 quando fui convidado a integrar o grupo de trabalho para Cuba da International Federation of Liberal Youth. Desenvolvíamos um serviço voluntário de cooperação que integrava diversas organizações não governamentais internacionais a grupos da resistência cubana, como o Movimiento Cristiano Liberación (MLC) – fundado por Payá – e a hoje extinta Coalición Martiana Juvenil.

O destaque do MLC, no entanto, era notório. Tiveram sua primeira grande aparição há exatos dez anos, quando seu líder entregou em mãos ao ex-presidente americano Jimmy Carter uma carta contendo mais de dez mil assinaturas em apoio ao Proyecto Varela, cujo mote principal era a instauração de uma nova constituição democrática na ilha.

Além disso, o movimento foi desde seu início grande entusiasta da militância juvenil – motivo que me permitiu trocar duas breves mensagens virtuais com seu então líder Oswaldo Payá, que dedicava boa parte do seu tempo exatamente com o trabalho de conscientização de jovens estrangeiros para que pudessem convencer seus governos a pressionar o Regime Castrista para que tomassem um caminho rumo às liberdades civis.

O cenário em que se passou a morte de Payá, alias, é uma prova deste engajamento. No momento do acidente, estavam em seu carro os jovens Aron Modig e Angel Carromero, respectivamente presidente nacional da Juventude Democrata Cristã da Suécia e presidente do Nueva Generaciones – ala jovem do Partido Popular Espanhol – no departamento de Salamanca. Ambos com menos de 30 anos e que, apesar da falta de informações sobre o assunto, parecem estar fora de perigo.

Ainda assim, apesar da perda irreparável, a morte de Oswaldo não tira o brilho do Movimiento Cristiano Liberación. Pelo contrário, aumenta a força de vontade de seus militantes e coloca novamente na pauta da comunidade internacional o dia-a-dia da ilha caribenha.

Casado e pai de três filhos, Payá acreditava na força da família – e não do Estado – para educar as crianças e jovens de seu país. Diferente de Fidel e Raúl Castro, via na liberdade a força motriz para o desenvolvimento de Cuba. Defendia a vida e foi um dos maiores críticos das prisões e assassinatos políticos cometidos pelo regime ditatorial que permanece intocável no governo da ilha desde 1959 – cinco anos antes do golpe militar brasileiro que já teve fim há 27 anos.

Assim sendo, tenho plena certeza de que este triste acidente representará um incentivo a mais para os que vislumbram uma verdadeira revolução em Cuba.

Como disse em mensagem enviada no dia 7 de setembro de 2009, data de nossa independência, “su trabajo, proyectos y palabras son un estimulo para la lucha pelos derechos humanos y la democracia. ‘Una nueva luz, la de la paz, se levantará’. Parabién por su heroísmo, señor Payá!”.

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Pela vida, por Cuba e pela liberdade

Inicio este artigo em um momento dicotômico para a política mundial. Por um lado, ativistas dos direitos humanos conseguem forte espaço na mídia e nos parlamentos de todo o mundo para lutar pela liberdade de expressão em Cuba. Por outro, as atrocidades parecem ficar cada vez piores dentro da ilha socialista, com o falecimento de Orlando Zapata, o grave estado de saúde de Guillermo Fariñas e a recente prisão de Néstor Rodríguez Lobania.

Neste caso, todos os três citados têm dois fortes pontos em comum. O primeiro é a sua militância política que lhes garantiu a classificação de “Presos de Consciência” pela Anistia Internacional – organização não governamental mundialmente famosa. O segundo é que são alvo de uma investida do Estado e mídia estatal cubana – liderada pelo jornal Gramna – que tenta transformá-los em criminosos comuns, criando fichas policiais onde os acusam de crimes contra o patrimônio e comportamento agressivo.Para entender um pouco melhor o assunto, apresento o breve perfil de cada um deles tendo por fonte matérias recentes do periódico espanhol El País.

Orlando Zapata Tamayo era encanador e pedreiro, fundador do partido Alternativa Republicana e preso em março de 2003 no conhecido e triste evento Primavera Negra, quando foram presos mais 75 ativistas políticos.

Guillermo Fariñas Hernández foi diretor da agência de notícias Cubanacan Press e iniciou sua vida pública pelos direitos humanos em 1989 a partir de um protesto contra o fuzilamento do general Arnaldo Ochoa. Está cumprindo sua terceira pena como preso político e é conhecido por uma série de greves de fome, sendo que sua última – e mais famosa – foi pelo livre acesso a internet para todos os cubanos.

Néstor Rodríguez Lobania é o líder do Movimiento Cubano de Jóvenes por la Democracia e havia sido convidado para palestrar sobre a situação cubana no 2º Encontro de Geneva para Direitos Humanos, Tolerância e Democracia. Após a concessão do visto para a viagem, as autoridades cubanas vetaram sua saída do país – caso que mereceu uma carta de apelo para intervenção da ONU assinada no dia 4 deste mês por 32 organizações internacionais.

Zapata faleceu no dia 23 de fevereiro após uma greve de fome de 85 dias por melhores condições aos presos cubanos, enquanto o presidente brasileiro Luiz Inácio da Silva fazia visita amigável aos ditadores Raúl e Fidel Castro. Lula, em entrevista a Associated Press, condenou a greve de fome como recurso para libertar presos.

Fariñas, em greve de fome junto a Zapata e pela libertação de 26 presos políticos com graves problemas de saúde, foi hospitalizado no dia 11 deste mês após desmaiar em seu 16º dia de protesto. Lula, bem como o fez o Gramna, declarou apoio a justiça cubana e comparou dissidentes políticos a presos comuns.

Lobania foi preso no dia 9 quando se dirigia para o Ministério de Justiça para fazer um novo apelo para que pudesse viajar para o encontro sobre direitos humanos em Geneva. Segundo o Directorio Democrático Cubano, a falsa alegação policial é de conduta violenta e de crimes contra o patrimônio. Lula se calou.

Na contramão ao chefe de Estado brasileiro, seguem parlamentares e organizações de todo o planeta – incluindo o Brasil – que remetem às Nações Unidas e ao Governo Cubano moções de repúdio e campanhas pela liberdade de expressão na ilha socialista.

No Brasil, o deputado Raul Jungmann (Partido Popular Socialista) protocolou no dia 10 uma carta, junto a presidência, dos movimentos oposicionistas de Cuba solicitando apoio do presidente Lula na luta pelos direitos civis. Tentou ainda uma moção lamentando o falecimento de Orlando Zapata mas, na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, o deputado Nilson Mourão, do partido de Lula, promoveu uma manobra que impediu sua aprovação.

No Senado, no entanto, o mineiro Eduardo Azevedo (social democrata) conseguiu aprovar um voto de solidariedade ao povo cubano.

O Parlamento Europeu, em votação histórica de 509 votos pró e 14 abstenções, uniu socialistas a liberais pela aprovação da moção de repúdio à repressão de Raúl Castro e de preocupação em relação a situação de seus oposicionistas pacíficos.

Percebendo este cenário internacional favorável – o qual orgulharia o recém falecido filósofo liberal francês Jean-François Revel, autor de “Como terminam as democracias” – onde pela primeira vez nas últimas décadas vemos uma forte campanha mundial pelos direitos humanos em Cuba, não podemos permitir que o passar dos dias faça com que a bandeira caia.

Não podemos esperar que Guillermo Fariñas morra, como já disse estar pronto para tal, e que novos ativistas da liberdade sigam o mesmo caminho. Devemos intensificar tal campanha global e agir já!

É por esta visão que integro a campanha da Federação Internacional das Juventude Liberais (IFLRY) que, junto a Freedom House e outras organizações internacionais, intensifica a ação de sua Comissão para Cuba e se prepara para lançar uma nova campanha que atingirá todos os mais de 80 países na qual possui entidades representantes.

Representando a Juventude Democratas de Minas Gerais estou nesta campanha e convido a todos vocês, sensibilizados pelo espirito de liberdade dos ativistas cubanos, que se unam a IFLRY nesta nova campanha. Todo tipo de ajuda, desde que sincera e em prol da liberdade, é totalmente bem vinda.

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