Mais governo ou menos impostos?

(Publicado pelo Jornal do Commercio e Instituto Liberdade)

Apesar de conhecer a imprensa brasileira, confesso ter ficado surpreso ao abrir o site d’O Globo e me deparar com a manchete “Eleições nos EUA: republicano diz que gravidez após estupro é ‘vontade de Deus’”. Embaixo desta, em fonte menos agressiva, chamadas remetiam para questões como as “gafes de Romney” e o quase divórcio de Obama e sua célebre esposa Michelle.

Tais reportes da política americana já se tornaram comuns não só nos veículos de comunicação ligados às Organizações Globo mas em boa parte dos meios de massa do país. Fala-se muito dos discursos politicamente corretos – ou incorretos – e dos deslizes cometidos em sua maioria por candidatos republicanos, mas pouco se trata do que cada partido representa para a democracia americana – além, é claro, dos impactos que a eleição de cada candidato representaria para o Brasil.

De fato, isso explica o resultado da pesquisa de opinião elaborada a pedido da rede britânica BBC que identificou um índice favorável a Obama de 65% dos brasileiros entrevistados. A justificativa, segundo eles, estaria no pacifismo projetado pelo atual presidente americano, além de sua cor – gerando maior identificação do que a do caucasiano Mitt Romney.

O que ocorre, na verdade, é um cenário relativamente diferente do que é projetado pela imprensa brasileira. Como pode ser observado durante o último debate presidencial, o candidato republicano Mitt Romney defendeu a importância de um relacionamento mais próximo com as nações latino americanas – das quais o Brasil é apontado como um dos líderes mais proeminentes – enquanto o democrata Barack Obama desviou do assunto e manteve seu discurso focado na resolução da crise financeira que afeta majoritariamente os Estados Unidos e a Europa.

Em relação às guerras, a diferença entre ambos residiu em uma típica anedota da política local: enquanto republicanos querem aumentar o poderio militar para não usá-lo, democratas querem reduzi-lo mas colocá-lo em exercício em todas as partes do mundo.

Na prática, Romney deseja aumentar o orçamento militar. Obama, por sua vez, diz não ser necessário, assumindo que o país tem força suficiente para defender Israel e atacar o Irã no momento mais oportuno – plano, aliás, compartilhado por seu rival republicano, o que demonstra que, com um ou com o outro, haverá uma nova guerra no Oriente Médio caso um milagre islâmico não faça com que Ahmadinejad encerre suas pesquisas rumo à produção de armas de destruição em massa.

A discordância, no entanto, acontece quando o tema da discussão é a recuperação da crise financeira. Obama, apesar da seqüência de planos fracassados, acredita que um maior investimento na economia poderia gerar empregos e fazer com os Estados Unidos voltassem ao patamar de paraíso capitalista. O problema, como aponta Romney, é que o democrata deseja fazer isso às custas de uma carga tributária ainda maior. Em sua discordância, o republicano acredita que a economia só irá se recuperar quando o governo parar de intervir, reduzindo impostos e permitindo que os cidadãos desenvolvam seus próprios negócios sem ter de carregar o peso de um governo excessivamente grande.

Caso a imprensa brasileira estivesse mais dedicada a prestar um serviço de educação política e informação à população, tenho a certeza de que trazendo para o Brasil este debate – de investimento público versus redução da carga tributária – acabaria por proporcionar um amadurecimento democrático muito maior do que a discussão atual em torno das gafes de Romney e do divórcio de Obama.

Como esperança é a última que morre, ainda temos uma semana de expectativas para ler a publicação de uma chamada verdadeiramente aprofundada nas primeiras páginas de nossos jornais, revistas e portais jornalísticos. Adaptando a típica conclusão dos discursos políticos americanos, que Deus abençoe os Estados Unidos da América, e a imprensa brasileira.

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/10 (0 votes cast)

Uma proposta eleitoral para problemas econômicos

(Publicado em inglês no Global Spinner)

No que pode ter sido a última tentativa pré-eleitoral em salvar a imagem dos Democratas na Casa Branca, o presidente Obama apresentou um projeto de US$447 bilhões prometendo um aumento considerável no nível de empregos dos Estados Unidos para os próximos dois anos.

Consistindo basicamente em uma série de isenções fiscais para folhas de pagamento e investimentos massivos em educação e infraestrutura, Obama utilizou toda a retórica que pode para desafiar Republicanos apontando trade-offs como a decisão entre isenções para empresas petroleiras ou para pequenos empresários que desejam empregar mais americanos. A questão, diferente de incitação à briga de classes, é “simplesmente matemática”, afirmou.

Três pontos de seu discurso ao Congresso merecem destaque:

1)Mas os milhões de americanos que estão nos assistindo agora não se importam com política. Eles têm problemas reais. Muitos passaram os últimos meses procurando empregos (…)” – Como em todo o discurso, uma forte retórica que garantirá aos Democratas utilizar eleitoralmente o resultado desta proposta. Caso não seja aprovada, afirmarão durante a campanha de 2012 que Republicanos se preocupam mais com política do que com os problemas da vida real.

2)Tudo que está aqui compõe o tipo de proposta que tem sido defendida por Democratas e Republicanos” – É verdade que muitos dos pontos apresentados deixaram Republicanos satisfeitos, mas os Democratas terão problemas nos próximos dias quando tentarão explicar como irão bancar estes US$447 bilhões. Obama apontou uma das possíveis alternativas sugerindo mais uma vez uma reforma no sistema tributário onde os mais ricos deveriam pagar ainda mais. Será que ele realmente pensa que Republicanos aprovariam isso?

3)Vamos trabalhar e mostrar ao mundo mais uma vez por que os Estados Unidos continua sendo a melhor nação da Terra” – Bom, se você não nasceu nos Estados Unidos, não preciso explicar. Certo?

O plano, em linhas gerais, não é ruim. Apresenta ideias fantásticas no corte de tributos para pequenos empresários que desejam empregar mais e levanta políticas de longo-prazo interessantes no desenvolvendo estrutural do país. Ainda assim, é um projeto caro que demandará novos e novos ajustes para ser financiado.

Vamos esperar pela resposta do Tea Party. Neste momento, são eles os fiéis da balança que decidirão o rumo econômico dos Estados Unidos – e do mundo ao seu redor.

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/10 (0 votes cast)