Governo versus empreendedorismo

(Publicado pelo Estado de Minas [05/03/2012], Diário do Comércio, Norte de Minas e Portal Contábil de Santa Catarina)

É interessante perceber o tratamento que cada governo dá para os empreendedores de seu país. Cada um, de acordo com seu histórico político e econômico, requer uma determinada quantidade de taxas e tributos, além de especificidades burocráticas que acabam por interferir diretamente na criação e manutenção de empresas e contratos.

Gregory Mankiw, professor de Harvard conhecido por seus livros-texto em economia, comentou o assunto em artigo recente para o New York Times onde afirmou que o sistema tributário deveria ser algo planejado para atingir objetivos claramente definidos. Nesta e em obras passadas, induz a pensarmos que o jogo político proporciona uma construção aleatória de um sistema que, no final das contas, acaba por unir interesses divergentes em um único código.

Se a afirmação faz sentido para os americanos, onde o tema é recorrente, imaginem no Brasil, onde a reforma tributária nunca saiu do papel. Por aqui, como todos bem sabem, os pequenos empreendedores que conseguem sobreviver em meio a tantos impostos e burocracia são verdadeiros heróis.

Mesmo com a Lei Geral da Pequena e Micro Empresa e projetos como aquele que deu origem ao Micro Empreendedor Individual, as dificuldades para criar e desenvolver um novo negócio são tão grandes que os poucos que se aventuram acabam vendo no governo um adversário mais perverso do que seus próprios concorrentes.

Nos últimos dias, senti na pele as especificidades que diferenciam países com uma carga burocrática extremamente pesada dos que estimulam o desenvolvimento de seus empreendedores.

Como tesoureiro de uma organização internacional sediada em Londres, tive de preparar a prestação de contas a ser entregue às autoridades para que fosse calculado nosso tributo anual – algo que no Brasil demandaria não só um contador especializado, mas também um escritório de contabilidade que tivesse feito todo o controle financeiro da organização durante o ano.

No Reino Unido, quando se faz a gestão de uma empresa regular com faturamento anual inferior à R$17,6 milhões, não existe a demanda pelo profissional de contabilidade nem para a gestão mensal das finanças nem para a prestação de contas para autoridades governamentais.

No caso brasileiro, mesmo que não houvesse esta necessidade, seria praticamente impossível que um pequeno empresário padrão conseguisse entender sozinho todo o sistema tributário a fim de regularizar a situação de sua empresa. Por lá, não bastasse a isenção do contador, as etapas para a prestação de contas são incrivelmente simples e contam com uma série de manuais – e pasmem! Também vídeos explicativos no Youtube – para que qualquer gestor possa executá-las sem maiores problemas.

Ainda assim, para os que tiverem qualquer dúvida, o governo britânico coloca a disposição uma linha telefônica que atende em horário comercial para dar recomendações e esclarecer dúvidas gerais. Ao conhecer tal facilidade, confesso que passei alguns minutos imaginando como funcionaria um call-center similar no Brasil.

Como Mankiw afirmou, “preencher formulários governamentais nunca será algo prazeroso, mas se reformas puderem simplificar os processos, a tarefa pelo menos ficará menos onerosa”.

Em uma economia dinâmica repleta de idéias inovadoras e oportunidades, uma carga exagerada de burocracia não só coloca em dúvida a eficiência das agências governamentais, como impende o desenvolvimento de novos empregos e riquezas. Assim sendo – e tendo em mente o que acontece nos países mais ricos – já passou da hora de se pensar em uma reforma tributária que permita ao cidadão brasileiro colocar em prática todo o seu empreendedorismo que até então foi freado por nossos governantes.

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A paz tornou-se política lucrativa

(Versão adaptada de meu artigo em inglês “A Small Word”, publicado também pelo Diário de Natal)

Ao ler alguns dos maiores jornais do mundo, é possível perceber que nosso planeta não está mais tão grande quanto já fora um dia. Uma passada de olho pelas páginas de opinião de periódicos como China Daily, The Economist, Hurriyet Daily News, New York Times e Guardian acaba assustando até o mais otimista dos internacionalistas. Não só seus assuntos são similares, como também suas abordagens e conclusões. Durante os últimos dias – e provavelmente também as últimas semanas -, o assunto mais discutido por eles foi o diálogo entre os Estados Unidos, a Europa, a China e o Irã. É curioso notar que editores e analistas não têm comentado a possibilidade de uma intervenção militar ou os polêmicos debates no Conselho de Segurança da ONU, mas sim os potenciais lucros e prejuízos que seus laços econômicos poderiam trazer.

Como o presidente do Conselho Europeu, Van Rompuy, escreveu para o China Daily, “o mundo está passando por mudanças rápidas e re-ajustamentos causados pela globalização, além de uma acelerada aproximação entre países e pessoas trazendo todos para o mesmo lado”. O cientista político Garton Ash demonstrou isso no Guardian ainda mais claramente, ao afirmar que inclusive a dinastia chinesa tem se tornando mais global, uma vez que a filha de seu vice-presidente e futuro líder Xi Jinping estuda na universidade de Harvard enquanto sua irmã mora no Canadá.

Nessa linha de globalização de lucros e prejuízos, nem os radicais islâmicos foram deixados de lado. Dennis Ross, ex-assistente de Barack Obama para o Oriente Médio, escreveu para o New York Times que o “Irã está pronto para conversar”.

Diferentemente do que a frase pode sugerir, Ahmadinejad não mudou de ideia sobre o perigo ocidental. Pelo contrário, está com medo dos prejuízos que a economia de seu país terá ao prosseguir nesse afastamento do eixo Europa-Estados Unidos. Como Ross explicou, o “Irã não pode mais negociar ou obter crédito denenhum banco internacional, o bloqueio americano maximizou a desvalorização de sua moeda nacional” e Bashar al-Assad, seu último grande parceiro, está cada vez mais longe do governo Sírio, já que a Primavera Árabe e as sanções internacionais se intensificam.

O mundo está ficando menor. E isso não é consequência de uma possível cultural global. Mesmo demandando padrões semelhantes de qualidade de vida, cada cidadão do mundo continua possuindo sua própria religião, seus hábitos pessoais e seu histórico familiar. Ainda assim, o comércio internacional e a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo acabaram por unir as pessoas.

Na prática, isto é fácil de ser percebido. Enquanto um executivo alemão usa seu guarda-chuva chinês em Londres, uma dona de casa russa está assistindo à sua novela brasileira preferida em uma televisão feita nos Estados Unidos. Como Thomas Friedman analisou em seu best-seller O mundo é plano, todas as nações se tornaram tão dependentes do comércio internacional que fechar fronteiraspassou a ser uma das piores coisas que qualquer governante poderia fazer.

Nesse sentido, guerras passaram a se tornar caras demais não apenas pelo alto custo de novos armamentos, mas pelos prejuízos financeiros que a quebra no comércio poderia trazer. A partir daí, a paz passou a ser vista como uma política lucrativa. É exatamente por isso que o Irã está pronto para conversar. É por isso que Xi Jinping está visitando os Estados Unidos. E, principalmente, é por isso que os líderes globais do futuro precisarão achar novas soluções para substituir suas políticas militaristas.

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A Small World

It is interesting to notice by reading some of the main global media vehicles that the world is getting really small. Taking a brief look at the opinion pages of papers as China Daily, The Economist, Hurriyet Daily News, the New York Times and the Guardian we can notice that most of their articles are directed to similar stories.

During the first days of this week – and probably also the previous ones – the main theme discussed was the dialogue between the US, Europe, China and Iran. It was curious to see that editors and contributors were not commenting the possibility of a military intervention or the debates at the UN Security Council but the possible gains and losses that their economical ties could bring.

As the president of the European Council Van Rompuy wrote for the China Daily, “the world is going through rapid changes and global readjustments caused by globalization and increased inter-connectedness between countries and peoples (…) [bringing] us closer together”. The political scientist Garton Ash made this statement more clear by affirming in The Guardian that even the Chinese dynasty is getting “global” as their vice-president (and future leader) Xi Jinping has a daughter studying at the Harvard University while his sister is living in Canada.

Even so the world didn’t forget the Iranian question. Nevertheless, the talks seem to be going in the same gains and losses direction. Dennis Ross, a former assistant to Barack Obama for the Middle East, wrote for The New York Times that “Iran is ready to talk”.

As he said, Ahmadinejad didn’t change his mind about the “western danger”. In the contrary, he is afraid of the losses that getting far from the west may cause to his country’s economy. As Ross said, “Iran cannot do business with or obtain credit from any reputable international bank, (…) American penalties (…) have helped trigger an enormous currency devaluation” and Bashar Al-Assad, his last political partner, is failing as the Arab Spring advances.

The world is getting smaller and it is not due to a raising global culture. Even demanding similar life quality standards, each citizen of the world still have its own religion, personal habits and family background. Still, international trade and David Ricardo’s comparative advantage theory united people.

While a German businessman uses his Chinese umbrella in London, a Russian housewife is watching a Brazilian soap opera in a US-made television. As Thomas Friedman analyzed in his bestselling “The World is Flat”, all the nations became so dependant in international trade that closing borders started looking like the worst thing a government could plan.

Wars became really expensive not only because of arms costs but mainly due to the losses that a break in international trade may cause. Peace began to be seen as a profitable policy.

That’s why “Iran is ready to talk”. That’s why Xi Jinping is visiting the United States. And, even more, that’s why the future global leaders will need to find different solutions other than militarist policies.

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Brazil: A Growing-Up Democracy

While the police strike is moving throughout the country, the Brazilian democracy seems to be growing up as its political parties’ answers are becoming less populist and more effective.

History shows that the Brazilian ruling party started to become a major political power due to its influence over unions and other social movements during the military dictatorship that ran the country until the mid 1980ies. After the end of the regime, many of the former communist guerrilla groups got together to create a moderate socialist party leaded by the unionist Luiz Inácio “Lula” da Silva that would become the country’s president in 2002 after four unsuccessful attempts.

Da Silva and his Workers’ Party became really famous not only because of their strong speeches in favor of a higher minimum wage and labor conditions but mainly due to their strength in controlling violent strikes all over the country. Even tough, it was not the workers’ class that managed to elect him.

After four attempts as a typical unionist leader, the Workers’ Party hired Duda Mendonça – that would become the Brazilian propaganda guru – to transform Lula in a new leader capable to win the national election.

An Armani suit, a well-shaved beard and a conservative speech mixed with some Keynesian ideas were the big moves to make him the new president (and, some years after, to elect the Peruvian radical Ollanta Humala as the president of his neighbor country).

This new style not only elected him, but also created a new image strong enough to let him govern the country for eight years and to elect Dilma Roussef – his main minister – as the new president in 2010.

After ten years ruling the country, Dilma’s government showed that the Workers’ Party grown up. A week after privatizing three airports – what would make them wrathful one decade ago – the neosocialist answer to the police strikers was not really different than the one usually given by right wing leaders: “My call to the policemen is directed to ask them to come back to work (…) and that we must sue and punish the ones who committed violence during the protests”, said Jacques Wagner, the Workers’ Party governor of Bahia.

Despite being a tough situation that must be solved as soon as possible in order not to hinder carnival celebrations, the police strike helped to show that the Brazilian democracy is going forward as its political leaders are aiming at efficiency State no matter if it means to cease with their famous populist speeches.

Many problems still need to be solved, but as politicians goes toward a new way of doing politics, a bright future starts to become possible.

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Al-Assad e a semântica da diplomacia

(Publicado pelo Jornal do Commercio e pelo Expresso [Portugal])

Em 1952, o americano Frank Chodorov foi brilhante ao escrever em “One is a Crowd” que “sociedade é um conceito coletivo e nada mais”. Segundo ele, diferente de termos como a família ou uma multidão, não existem grandes laços que possam representar um consenso na sociedade.

Famílias, segundo ele, existem pelos laços entre seus membros. Uma multidão agrega pessoas com um objetivo comum, bem como assistir uma palestra ou um jogo de futebol. A sociedade, por outro lado, é o conjunto de todos, reunindo do médico ao fazendeiro e do padre ao ateu.

Por tal motivo, seria impossível dizer o que pensa a sociedade. Ou, em um caso similar, o que pensa ou deseja um país. Ninguém vê a sociedade ou a Argentina andando pelas ruas, fazendo compras ou votando para um determinado candidato. Quem o faz são os indivíduos, estimulados por motivos próprios, podendo ou não estarem inclusos em outros conceitos menos gerais.

Um exemplo claro disso, como lembra Chodorov, é o caso alemão. Não eram todos os alemães que eram nazistas, como se supõe ao mencionar a “Alemanha nazista”. Existia uma parcela da população que realmente concordava com as aberrações de Hitler e seu partido, é fato. Mas também existiam indivíduos que discordavam de seu governante ou que não possuíam nenhuma opinião sobre este.

O mesmo pode-se dizer de rótulos como o “extremismo do Irã” ou até mesmo da afirmação de que os “Estados Unidos estavam em guerra contra o Iraque”.

O extremismo, na verdade, é da cúpula governista iraniana, enquanto a guerra foi uma ofensiva do governo americano – e suas forças armadas – contra o governo iraquiano, então liderado pelo ditador Saddam Hussein.

Estas considerações podem se parecer com um debate irrelevante sobre semântica ou com a tentativa de se iniciar uma polêmica sem finalidade prática. No entanto, levando em consideração a última guerra no Golfo, duas simples perguntas podem provar a importância do assunto: Todos os militares que entraram no campo de batalha estavam lá voluntariamente? Todos os mortos – de ambos os lados – eram adeptos das visões políticas de seus governantes e representavam um perigo para a civilização?

A resposta, claramente negativa, deveria despertar certo peso na consciência daqueles que autorizaram os ataques. Indo além, se esta questão afeta democracias, imagine o que não pode causar em regimes ditatoriais.

Ao descrever a sociedade – ou um país – como se este fosse uma pessoa, acabamos caindo no erro de julgar cada membro deste grupo pela impressão que temos do todo, cometendo enganos que, dependendo da proporção de cada ação, pode gerar miséria e morte de inocentes.

Os recentes debates do Conselho de Segurança da ONU são um claro exemplo deste mau-entendido semântico. Quando governantes chineses e russos se unem contra os diplomatas das potências européias e dos Estados Unidos, acabam legitimando que o governo sírio, presidido por Bashar al-Assad, seja a voz única de seu povo.

Fazendo isso, diferente de meramente frear uma nova ofensiva militar na região, acabam por transformar o ditador em uma unanimidade intocável que responde por todos os residentes da Síria, incluindo até mesmo aqueles que prende e assassina por discordar de suas idéias.

Felizmente, em um mundo onde o realismo militarista e os erros semânticos imperam, indivíduos vêm fazendo a diferença. Foram eles que, guiados pelos bons ventos da Primavera Árabe, venceram na Tunísia e continuam sua luta para vencer no Egito. Serão eles que, apesar da guerra de egos no Conselho de Segurança da ONU, mostrarão novamente sua força e vencerão também na Síria.

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Twitter versão saudita

(Publicado também pela Tribuna do Planalto e pelo Jornal do Commercio)

O maior defeito do capitalismo é colocar boa parte das tecnologias e dos avanços sociais à mercê da influência do poder financeiro.

O príncipe saudita Alwaleed bin Talal é prova viva disto. Líder de uma das nações mais poderosas do mundo, sabe muito bem que depende do controle dos meios de comunicação para se manter soberano. É por isso que se orgulha de conquistar mais uma vez espaço na lista anual elaborada pelo The Arab Media Forum que identifica os homens mais influentes da mídia árabe.

Alwaleed, no entanto, precisou ir além para manter seu poderio. Mandatário da Arábia Saudita onde os lucros do petróleo são divididos entre o Estado e sua empresa, a Kingdom Holding Company, aprendeu com a história da região que a opinião pública da comunidade internacional é fundamental para que pressões externas não reduzam sua força política.

É por isso que, por meio de investimentos massivos, se inseriu em empresas como a Time Warner, a rede televisiva Fox e o influente The Wall Street Journal, além de adquirir veículos de comunicação espalhados por todas as regiões do planeta.

Atento às evoluções econômicas e políticas do mundo, o príncipe bin Talal não parou por aí. Percebeu por meio da Primavera Árabe o perigo das redes sociais e, em dezembro de 2011, promoveu seu mais novo investimento: colocou 300 milhões de dólares no Twitter, substituindo um de seus fundadores no controle do grupo que reúne mais de 100 milhões de usuários em todo mundo.

A investida, segundo ele, tinha a mesma finalidade das demais promovidas anteriormente: maximizar o lucro de seu grupo empresarial. A mídia internacional, controlada em parte por ele mesmo, engoliu a declaração.

O alarmante, no entanto, é que um mês após sua entrada no conselho diretivo, o Twitter já apresenta uma mudança circunstancial: anunciou neste 26 de janeiro que, para continuar a crescer internacionalmente, poderá seguir a orientação de governantes adotando restrições ao conteúdo de suas mensagens em determinados países.

Sua justificativa politicamente correta é que, como na França e na Alemanha campanhas pró-nazismo são proibidas, o conceito de liberdade de expressão pode diferir de acordo com a história e cultura de cada nação. O lado politicamente incorreto, é claro, não foi exposto: caso a postura tivesse sido adotada em 2009, a Primavera Árabe não teria passado de mais uma iniciativa frustrada dos grupos pró-democracia da região.

O capitalismo, apesar da falha, tem no seu próprio sistema a solução para casos como este: o livre mercado.

Bem como o Yahoo, outrora dominante da internet, fora substituído pela Google que hoje passa por maus bocados para enfrentar o Facebook, desenvolvido por um universitário em seu dormitório estudantil nos Estados Unidos, o Twitter, apesar de soberano, não é único.

Com mudanças internas que tendem a restringir sua maior qualidade – a livre troca de informação pelo mundo –, surgirão novas alternativas que, com toda a certeza, terão a faca e o queijo nas mãos para engolir, sem grandes recursos financeiros ou poder político, o mega investimento do príncipe magnata.

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Mau Exemplo Húngaro

(Publicado também pelo Jornal do Commércio e O Norte de Minas)

Prestes a completar dois anos à frente do governo húngaro, o primeiro-ministro Viktor Orban é mais um a comprovar a tese de que extremismos são degradantes não importa de que lado estejam.

Assumiu o país em crise. Havia herdado um alto endividamento externo e a legislação engessada oriunda dos tempos em que o país ainda fazia parte da União Soviética. No entanto, tinha a faca e o queijo na mão para mudar a realidade da Hungria: seu partido de centro-direita cristã, o Fidesz, havia elegido dois terços do congresso e contava com o apoio da população para implementar todas as reformas conservadoras que havia prometido.

O excesso de poder, no entanto, fez com que Orban exibisse seu lado mais radical. Aprovou reformas não ortodoxas estatizando boa parte dos fundos privados de pensão e se afastou do Fundo Monetário Internacional para que suas decisões não sofressem pressões externas.

As medidas, no entanto, agravaram ainda mais a situação econômica do país. Além do prejuízo ao dificultar a renegociação de suas dívidas, criou temor na comunidade internacional recebendo o índice BBB- (apelidado de “lixo”) das três principais agências de rating do mundo: Fitch, Moody’s e Standard & Poor’s. O resultado não poderia ter sido pior para um país que, para sobreviver, demanda altos investimentos externos.

Não fossem suficientes as aberrações econômicas, Orban partiu também para as questões sociais: aprovou uma nova constituição que transformou a Hungria em uma das nações mais conservadoras da Europa e se prepara para cancelar a licença de oito estações de rádio, incluindo sua tradicional opositora Klubradio.

Por ser uma pequena nação, a Hungria não representa um grande perigo para a economia mundial. Também não tem poder bélico suficiente para assustar. No entanto, está no coração da Europa, fazendo fronteira com países como a Áustria, a Romênia e a Ucrânia. Tem, por sua posição geográfica e sua história, um alto potencial para criar exemplo e promover em outras nações o modelo neofascista que Viktor Orban começa a desenhar.

Em tempos de crises econômicas e divergências religiosas entre cristãos e islâmicos, tudo que o mundo não precisa é de um exemplo extremista que vá à contramão da globalização dos valores democráticos.

Para frear a ofensiva governista, o povo húngaro já prepara sua resposta: marcou para o dia 15 de março, feriado nacional, uma grande marcha que promete tomar as ruas da capital Budapeste. Cabe agora à comunidade internacional, economicamente representada pelos bancos mundiais, e socialmente exercida na região pelos fóruns da União Européia, reavaliar seu posicionamento frente às medidas do partido Fidesz para que a Hungria não seja mais um mau exemplo no cenário político mundial.

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Uma primavera para a Rússia

(Publicado também pelo Jornal do Brasil e O Estado do Paraná)

Democracia nunca foi palavra de ordem na Rússia. Pelo contrário, o país sempre inspirou entre vizinhos e aliados modelos de governo que se distanciavam – e muito! – da representação direta.

Os proto-ditadores Alexander Lukashenko (Bielorrússia) e Viktor Yanukovych (Ucrânia) que o digam. Enquanto o primeiro promovia leis para banir manifestações populares, o segundo processou e deu ordem de prisão para Yulia Tymoshenko, sua antecessora na presidência. Tudo isso com o apoio irrestrito dos líderes russos Dmitry Medvedev e Vladmir Putin.

Tal apoio a regimes conturbados não parou por aí. Nos recentes debates do Conselho de Segurança da ONU se tornou comum ver diplomatas russos discursando em defesa de ditadores como Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad.

A postura, apesar de despertar a aversão dos ocidentais, não é controversa. Basicamente, defendem externamente uma cultura global que os permita adotar posturas anti-democráticas sem se preocupar com qualquer represália da comunidade internacional.

Estive na Rússia recentemente e senti na pele os efeitos da transição apressada rumo ao capitalismo que, coordenada por Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin, consolidou a conturbada realidade política desta mega-nação.

Em linhas gerais, as reformas liberais implementadas pelo comunista Gorbachev abriram espaço para que Yeltsin, seu opositor, acabasse com a União Soviética e promovesse o governo populista que liderou a então criada Federação Russa por quase uma década. O término de sua gestão ocorreu no último dia 2000, quando, no tradicional discurso anual do presidente, dispensou eleições e indicou seu primeiro-ministro para gerir a nação.

Além de manter seu grupo no poder, Boris Yeltsin criou ali um dos maiores mitos da história política do país: o ex-agente da KGB, Vladmir Putin.

O novo presidente consolidou seu partido, Yedínaya Rossíya, utilizou a alta dos preços no petróleo – maior commodity russa – para garantir estabilidade à conturbada economia nacional, cegou a intelligentsia e acabou sendo o responsável indireto por uma das cenas mais chocantes que já presenciei.

Em minha viagem, ainda em 2010, participei de um debate entre jovens liberais e membros do partido de Putin onde vi um estudante pró-governo de apenas 19 anos afirmar que seu partido realmente cometia fraudes eleitorais mas, no entanto, o fazia com uma boa intenção: facilitar a contagem de votos uma vez que todos já sabiam quem iria vencer. Ao comentar a falta de liberdade de expressão, o jovem prosseguiu com seu show de horrores: “É verdade que existe censura nas televisões e jornais. Mas isto não é um problema. Quem desejar mais informações ainda pode acessar a internet”.

Tal discurso retrata a exata realidade em que o país se encontra hoje. Após eleições fraudulentas para o legislativo e um visível enfraquecimento do presidente provisório Dmitry Medvedev, Putin se prepara para uma nova investida eleitoral em 2012 que promete ser sua grande prova de fogo.

A diferença é que, na direção contrária às investidas da diplomacia externa de seu governo, a onda global de protestos pró-democracia contagiou o povo russo e tem levado às ruas de Moscou e São Petersburgo quase que quinzenalmente um número que se aproxima dos cem mil manifestantes.

É assim que, ainda que sem um nome de peso, a oposição começa a desenhar um cenário preocupante para o Yedínaya Rossíya. O perigo, no entanto, reside nas possíveis reações de Putin. A comunidade internacional precisa, mais do que nunca, abrir seus olhos para não permitir que o governo russo repita em seu país as atrocidades que tolera em seus aliados.

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De vento em popa rumo ao precipício

(Artigo publicado também pelo Instituto Liberdade)

O ano se aproxima do fim e, com tantas velhas novidades, a jovem democracia brasileira exala vícios de poder que acabam por deprimir até o mais entusiasta dos otimistas. Que a reforma política não sairá, não é mistério para ninguém. Ora, qual político no auge de seu segundo ou terceiro mandato aprovaria mudanças que colocariam em risco sua reeleição em 2014? Mas daí a piorar o que já não anda bem, é um passo danoso e absurdo que parece estar sendo dado.

A criação do PSD foi um destes passos. Reuniram políticos insatisfeitos e aspirantes à governistas em um balaio de gatos que tende a ser uma versão apócrifa do PMDB. Surgiu sem passado, se firma sem presente e não demonstra nenhum rumo para o futuro. Como descreveu seu presidente, o prefeito Gilberto Kassab (PSD-SP), “não é de centro, de direita, nem de esquerda”. No entanto, é governista em praticamente todos os estados do país e trava uma batalha sem fim por cargos em todas as esferas de poder. Ou seja: é um pré-adolescente carente querendo atenção e uma mesada maior.

Do outro lado, os partidos pré-existentes passam por uma crise interna sem tamanho, onde se perdem na escolha entre poder e ideologia. Para eles, parece ser impossível aliar ambos os fatores. Vejam o caso do PSDB: além do tradicional embate entre Minas Gerais e São Paulo, não conseguem decidir se adotarão a versão paz e amor ou se farão oposição de verdade. O caso do ministro Fernando Pimentel é apenas uma pequena amostra dos dilemas Aécio-Serristas vividos pela legenda.

Sobre o PT, não preciso nem me aprofundar. O antigo partido que pregava o calote internacional, segue à risca a cartilha do Consenso de Washington e, com a ex-comunista Dilma Roussef, aposta nas privatizações do sistema aeroportuário como solução para o desenvolvimento brasileiro. Concordo totalmente com a fórmula econômica, mas… E os seus filiados?

Filiados, aliás, que nem sempre adotam as mudanças sonhadas por seus líderes partidários. Essa foi a realidade do Democratas: desde sua re-fundação, adotou uma postura invejável em nível nacional. Defendeu a redução dos impostos, promoveu CPIs e cortou na carne quando o então governador Arruda foi acusado de corrupção. No entanto, seus senadores e deputados ainda não conseguiram contagiar prefeitos e vereadores. Em boa parte do interior de todo o país, o partido continua com o antigo vício de ser controlado por caciques e grupos familiares.

No entanto, o que mais me assusta é o comentário do ex-prefeito Cesar Maia (DEM-RJ) em seu conhecido ex-Blog onde, ao analisar a crise européia, afirma que “o orçamento é a razão histórica de ser dos parlamentos” e que estes sofrem atualmente uma crise de soberania com as restrições fiscais que a realidade econômica os impôs.

Não concordo integralmente quando o assunto é a Europa mas, se fosse direcionada para o Brasil, a afirmação seria precisa. Por aqui, mais do que partidos, o que vale é a influência do parlamentar na hora de aprovar suas emendas orçamentárias e fazê-las serem adotadas pela presidência e seus ministros. Para eles, o que dá voto não são discursos inflamados ou projetos de lei, mas recursos para leitos hospitalares, reformas em escolas e instalação de mata-burros.

Cesar Maia revelou uma triste realidade que explica claramente, entre outros, a criação do PSD, o dilema tucano, o capitalismo PTista e a ineficiência da renovação democrata. Explica ainda o fracasso da reforma política e, infelizmente, dá o tom do ano eleitoral que se iniciará em poucos dias.

Enquanto a razão de ser de nosso legislativo for a distribuição do orçamento, continuaremos a ser a democracia das velhas novidades.

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A Mal-Sucedida Ocidentalização do Oriente

(Artigo publicado pelo Instituto Liberdade e no jornal Estado de Minas)

Enquanto as atenções dos editoriais de política internacional se voltam para a sucessão do regime comunista da Coréia do Norte, a conturbada realidade iraquiana dá sinais de que, mesmo com a ocupação americana, a estabilidade nacional está longe de ser atingida.

Na noite desta segunda-feira (19), apenas um dia após a retirada das tropas de Obama, as autoridades locais emitiram um pedido de prisão para o vice-presidente Tariq Al-Hashimi, acusando-o de dirigir um esquadrão da morte que assassinou uma série de oficiais e burocratas de alto escalão do governo.

O fato, que dividirá políticos e imprensa nos próximos dias, é que não se pode afirmar se a decisão foi baseada em acusações reais ou motivada pela disputa de poder entre o bloco xiita, atualmente na presidência com Nuri Kamal Al-Maliki, e o sunita, liderado por Al-Hashimi.

Tal disputa, alias, é resultado mais do que esperado para o regime de exceção que vive o país após a queda do ditador Saddam Hussein. A diferença, no entanto, é que agora os iraquianos não contarão mais com o suporte dos militares ocidentais para conter suas crises.

A contenção, como se sabe, foi constante nos últimos oito anos. O papel exercido pelos americanos, muito mais do que a mera manutenção da segurança pública, foi também o de coordenar a controversa imposição de um regime democrático em um país fragilizado por uma ditadura violenta que vigorou por 24 anos.

Em linhas gerais, os iraquianos tiveram 19 meses para re-estabelecer todo o seu sistema partidário e eleger, em outubro de 2005, o governo que seria responsável pela condução do país a uma versão ocidentalizada da política árabe.

O resultado foi a eleição de uma coalizão entre os maiores opositores do país, colocando um xiita na presidência e um sunita como vice, enquanto seus blocos de sustentação – partidários e milicianos – lutavam pela dominação do país.

Hoje, como temem os parlamentares do bloco sunita Iraqiya, a situação se aproxima da maior crise política vivida desde o início da redemocratização do país sob o risco de que uma onda de acusações seja direcionada para todos os que não estiverem alinhados com o presidente Al-Maliki.

Culpados existem aos montes, mas a parcela da opinião pública do ocidente é elevada. Se a imposição de qualquer modelo político norte-americano criaria gargalos e crises no Brasil, imaginem o impacto da ocidentalização das relações de poder em uma nação oriental que respira conflitos desde o inicio da civilização suméria ainda quatro milênios antes de Cristo.

Por mais que a democracia representativa soe como um dos padrões universais impecáveis a ser seguido por todos os povos, é fundamental que a opinião pública entenda a necessidade de se respeitar a cultura local quando se deseja prestar qualquer tipo de auxílio internacional. Caso contrário, como pode ser visto, o resultado tende a ser catastrófico.

Agora, apesar da lição, caberá à comunidade internacional do ocidente decidir qual será seu próximo passo: uma nova intervenção, o distanciamento progressivo ou um meio termo que leve em consideração o histórico árabe.

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Entrevista (comentada) do senador José Agripino

Entrevista concedida pelo presidente nacional do Democratas, senador José Agripino, ao jornal O Tempo (Minas Gerais).

Perguntas em vermelho, respostas em preto e comentários meus em [azul].

O DEM É UM PARTIDO QUE DIMINUIU DE TAMANHO AO LONGO DO TEMPO: PERDEU REPRESENTAÇÃO TANTO NOS GOVERNOS ESTADUAIS QUANTO NO CONGRESSO NACIONAL. POR QUE ISSO ACONTECEU?

O DEM pagou o preço por ter exercido o papel de ator coadjuvante nas alianças com o PSDB. O partido abriu mão, em vários momentos, de disputar governos estaduais e prefeituras para favorecer a vitória do aliado. A mesma coisa aconteceu no plano nacional. E isso fez com que o partido perdesse o papel de protagonista, cedendo espaço ao PSDB, que foi um parceiro leal, mas que, no decurso do tempo, fez com que nós perdêssemos espaços.

[O senador dá sinais de que o DEM está pronto para seguir carreira "solo". O discurso pode ter dois sentidos: (1) sentir a reação da imprensa/eleitorado em relação a empreitada independente, e/ou (2) avisar ao PSDB que espera um "tratamento melhor" para continuar na parceria]

O DEM errou ao ter escolhido esse caminho?

As circunstâncias nos condicionaram a isso. Essa foi uma opção feita desde a fundação. O PFL foi criado para fazer a transição democrática, com a eleição de Tancredo. Tancredo morreu, assumiu José Sarney, que compôs o governo. Em seguida, nós participamos de disputas alinhados com Fernando Henrique Cardoso, por conta de afinamentos programáticos que tínhamos. Então, as circunstâncias de disputas eleitorais, em função de afinidades programáticas, nos levaram a compor uma chapa. Eles eram mais fortes, tinham candidato a presidente da República com mais chances de ganhar, nós oferecemos o vice e seguimos junto com o PSDB. Não foi o caminho errado, foi o caminho possível.

[Um recado claro ao senador Aécio Neves, reforçando a dívida histórica pela eleição de seu avô]

Em 2009, o partido viveu uma de suas piores crises, que ficou conhecida como “mensalão do Democratas”. Esse episódio já está superado?

Sim. Nós fizemos o que nenhum partido fez. Nós tomamos a iniciativa de expulsar o nosso então principal quadro, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, que, do ponto de vista administrativo, ia se conduzindo muito bem, mas que foi apanhado num flagrante atentado à ética. O DEM não hesitou pela sua expulsão em rito sumário. Cadê que o PT toma iniciativa semelhante? Quantos partidos acusados de prática de improbidade por próceres importantes tomam a mesma iniciativa? Para nós, esse assunto ficou encerrado, mas a imprensa, com a repetição da menção permanente do termo “mensalão do DEM” – que nunca foi mensalão do DEM, mas do governo do Distrito Federal -, prejudicou a imagem do partido.

[Como já era esperado, o senador reforça a postura do partido que, em caso de candidatura própria em 2014, baterá na tecla da ética por ter sido o único a cortar na carne. A bandeira é válida também para as eleições nas capitais em 2012]

Recentemente, o DEM também perdeu parte de seus quadros para o PSD. Qual foi a consequência disso para o partido?

O PSD foi criado com integrantes do DEM que tinham compromissos com si próprios, não tinham o compromisso partidário. Então, eles se foram e ficou o partido com a sua essência. Quem ficou no DEM – a maioria de seus líderes – ficou com o prestígio e a história. Então, prejuízo numérico existiu sim. Qualitativo, não.

Quando do surgimento do PSD, muitos parlamentares afirmaram que a tábua de salvação para o DEM seria a fusão com o PSDB. Essa é uma possibilidade?

Esse assunto não está na nossa pauta.

[Mas pode estar... Retorno mais adiante]

E as alianças compulsórias com os tucanos em 2012, já defendidas publicamente, inclusive pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), como ficam?

Não existe isso. O Democratas tem que pensar em si próprio. Cada partido tem a obrigação de pensar em si próprio. Respeitadas as afinidades, se a conveniência do Democratas for a aliança com o PSDB, muito bem, faremos, pois temos afinidades. Reservamos ao PSDB o papel da nossa interlocução privilegiada, mas não compulsória.

O senhor acaba de ser reconduzido à presidência do DEM. Quais os planos para os próximos anos?

Primeiro de tudo, vamos colocar as ideias do partido à frente das nossas próprias lideranças. Nós temos hoje as lideranças mais atuantes dentre os partidos de oposição, mas importantes mesmo têm que ser as nossas ideias. A ideia do Estado compatível com a qualidade do serviço público oferecido. Nunca um Estado com 40 ministérios. Um partido que defende uma carga de impostos que está de acordo com os interesses do Brasil em ser um país competitivo. E não dá para ser competitivo com essa carga tributária incivilizada que nós temos. Um partido voltado para o combate permanente à corrupção. Com as nossas ideias e a nossa postura, nós temos certeza de que haverá crescimento partidário.

Essa valorização das ideias do partido seria uma forma de retomar a ideologia da direita?

O DEM é um partido que tem uma articulação internacional, no plano da América Central, América do Norte e Europa, claramente de centro. Somos filiados ao IDC – Internacional Democrata de Centro – e é isso que nós queremos. A nossa ideologia é o que eu acabei de dizer, se é de centro, de direita ou de esquerda, isso é um carimbo que você pode colocar. O que nós somos é um partido que defende o prestígio do capital privado, o respeito à propriedade privada como forma de se garantir a segurança jurídica do Brasil no plano internacional.

[Apesar do posicionamento ideológico, o senador evita rótulos. Complemento na próxima]

Ou seja, liberal?

Evidentemente que não defendemos o chamado Estado mínimo, mas um Estado compatível, que não comporte 40 ministérios, mas faça uma prestação de serviços com quadros eficientes e não composto por pessoas que tenham como trunfo principal uma estrelinha do PT na lapela. Somos contra a ocupação das funções de Estado por pessoas cujo único mérito seja o alinhamento programático-partidário.

[Devido a péssima imagem linkada com o neoliberalismo e a direita - remetendo à ARENA - o senador evita identificar o Democratas como partido liberal de direita. O conceito liberal, que na Europa está diretamente ligado aos direitos humanos e respeito ao cidadão, toma o rótulo de elitista na América Latina. O objetivo, pelo que entendo, é de que a cúpula do partido não assuma rótulos mas dê liberdade aos seus militantes - essencialmente à juventude - para que os assuma para a criação de uma nova cultura onde a identidade liberal/conservadora/direita não tenha conotação negativa]

O DEM pretende lançar candidato a presidente da República em 2014. Por quê?

Ora, porque o objetivo de qualquer partido político é a chegada ao poder. Agora, os nomes possíveis virão em consequência da tese. A tese da candidatura própria à Presidência está nas cogitações do partido. Mas, entre a tese e o nome, há a distância que vai ser medida no tempo.

E nesse tempo haverá a consolidação de nomes. Eu não tenho dúvidas de que nós – que não temos hoje nenhum prefeito de capital -, nas eleições do próximo ano, faremos alguns prefeitos de capitais e muitos de cidades importantes. A partir desse crescimento de 2012, teremos a volta a, no mínimo, o tamanho que tínhamos antes do ataque do PSD. De acordo com esse crescimento de 2012, a tese da candidatura própria à Presidência, que está posta e defendida no partido, será considerada.

[A tese se torna bem clara: o resultado eleitoral de 2012 definirá o futuro do partido. Caso hajam vitórias consideráveis, a candidatura própria do DEM se viabiliza. Caso haja a manutenção do cenário atual, tudo indica que a aliança com o PSDB será mantida - mesmo que de forma mais distante. Caso o resultado seja péssimo, abre-se a porta para a fusão - seja com quem for]

O PSDB também deve concorrer ao Palácio do Planalto em 2014. Duas candidaturas da oposição ajudarão a derrotar o governo?

Não dá para saber o que vai acontecer daqui a três anos. Quem disse que a oposição não estará suficientemente forte para disputar a eleição com nomes bastante competitivos? Entre hoje e a eleição de 2014, muitos fatos podem acontecer. Você não pode raciocinar 2014 como se fosse hoje.

[Como disse no início: um teste para perceber o retorno da opinião pública e uma pressão sobre o PSDB e, quem sabe, PMDB]

Dilma Rousseff talvez tenha sido a presidente da República que mais viveu crises no seu primeiro ano de governo. Como o senhor o avalia?

Primeiro de tudo, não é o governo de Dilma Rousseff, mas o prosseguimento dos governos do PT. Em um ano, você já teve seis ministros demitidos por corrupção e mais dois estão na fila. Então, você teve um governo que o tempo inteiro conviveu com a improbidade, até porque os ministros que caíram foram substituídos por outros indicados pelo partido do demitido. A punição não existiu nunca. Foi a conivência com a improbidade e a impunidade.

Mas não há méritos da gestão?

Também se esperava de Dilma uma gestão eficiente, mas basta ver os números do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que, no governo dela, são inferiores em matéria de execução. A execução das obras do PAC apresenta hoje um desempenho percentual inferior ao dos tempos em que ela era a executora em nome de Lula. Dilma é frustração em termos políticos e em termos administrativos.

[O jornal O Tempo deu uma excelente oportunidade para que o senador Agripino desse um recado ao senador Aécio Neves em seu território. Os partidos seguem juntos mas é notório que o Democratas demanda mais "carinho" para manter a fidelidade que sempre teve desde a eleição de seu avô. Ao mesmo tempo, o Democratas ensaia vôo próprio e começa a se apresentar para a opinião pública como alternativa política para o país. Dependendo do resultado - e aí são fundamentais tanto os jovens como nossos parlamentares - haverá a viabilidade de termos, por exemplo, o senador Demóstenes Torres - que estará no meio de seu mandato - como candidato. A estratégia vem em boa hora e dá aos idealistas uma oportunidade sem igual de fortalecer seu discurso nas mídias sociais]

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Federación Internacional de la Juventud Liberal (IFLRY) re elige a João Victor Guedes como Tesorero

IFLRY en Español desde el sítio de la Red Liberal de América Latina

El pasado domingo, 4 de diciembre, la 64ª Asamblea General de la Federación Internacional de la Juventud Liberal (IFLRY) fue re-electo el brasileño João Victor Guedes para el cargo de Tesorero. El evento, celebrado en Turquía, estuvo marcado no sólo por las elecciones bienales de la organización, sino también por el Premio IFLRY Libertad para el Blogger Maikel Nabil, detenido recientemente por el Gobierno provisional egipcio por publicar artículos pidiendo la aplicación urgente de las elecciones presidenciales.

La organización, creada en Dinamarca en 1947 y actualmente con sede en Londres, es está compuesta por jóvenes de los Partidos, Asociaciones Estudiantiles y las organizaciones no gubernamentales liberales alrededor del mundo. En total, según la página Web de la organización pretende llegar a tres millones de jóvenes a través de más de 70 países.

Bruno Kazuhiro, Presidente de la Juventud Democrática en la ciudad de Río de Janeiro comentó que, más allá de que los jóvenes democratas de Brasil envíen al evento un delegado, más allá de ganar el cargo de Tesorero “la integración internacional es crucial para los jóvenes en Brasil para aprender de la experiencia de otras organizaciones y luchar por el mantenimiento de la democracia mundial y los derechos humanos”. Como Bruno dijo en una de sus presentaciones durante el evento, “la Juventud Democratas necesita expandir sus horizontes!”

Siguiendo esta política, jóvenes demócratas envió, junto con Jonge Democraten (Países Bajos), el Futuro Juvenil (Líbano) y NUV (Noruega), una resolución pidiendo la liberación de Blogger Maikel Nabil, al final de la represión militar y la realización de elecciones urgentes en Egipto. La resolución, aprobado por unanimidad durante el evento, pautará las acciones internacionales de las organizaciones miembros de IFLRY y nuevos directores electos en el evento.

Joao Víctor Guedes, reelecto Tesorero de la Organización, es también Presidente de los Jóvenes Democratas en Minas Gerais y se sumó a la Federación Internacional en agosto de 2010, desde su elección en la Asamblea celebrada en San Petersburgo (Rusia). Para él, “en un mundo globalizado, problemas como la corrupción y la falta de libertades individuales deben combatirse no sólo en las esferas nacionales sino también y principalmente, por medio de organizaciones diplomáticas, como la ONU y la OMC”.

La elección de Joao por Brasil se obtuvo con 87 votos, una abstención y ninguno en contra. También se eligieron al Presidente Thomas Leys (Bélgica), al Secretario General Naomi Rokkum (Noruega) y a los Vicepresidentes Mateusz Trybowski (Canadá), Stanislav Anastassov (Bulgaria), Christian Dragsdahl (Dinamarca) y Rabih Fakhreddine (Líbano).

La IFLRY, que además de actuar como grupo de presión también realiza actividades de capacitación, ha anunciado su próxima evento para abril del 2012, en el que discutirán políticas municipales – tema de alta importancia en Brasil debido a las elecciones de Alcaldes y Concejales en octubre de ese año.

Información realizada y publicada por Friedrich Naumann Instituto para a Liberdade, Sao Paulo, Brasil. http://www.ffn-brasil.org.br/novo/?secao=Atualidades&codigo=913. Traducido al español por: Mario Brenes, Consejero para América Latina. Oficina Regional Friedrich Naumann Stiftung für Die Freiheit.

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Impopularidade Política versus Qualidade de Vida

(Publicado também no Instituto Liberdade e no Jornal Agora)

É interessante perceber que medidas políticas e econômicas impopulares tendem, em um longo prazo, a maximizar a qualidade de vida dos cidadãos. Os discursos dos recém empossados primeiros-ministros da Itália e da Grécia tratam exatamente disto, clamando para que suas comunidades políticas os ajudem a agüentar as pressões populares que se seguirão aos ajustes financeiros propostos.

No entanto, não precisamos ir tão longe para verificar que a popularidade política não costuma estar diretamente relacionada ao sucesso da gestão pública. Na América Latina, e em específico no Brasil, a lista de exemplos é farta.

Um estudo[1] elaborado pelos professores Yi Wu e Li Zeng para o Fundo Monetário Internacional (FMI) abordou o impacto das reformas liberais no comércio internacional dos países emergentes entre 1970 e 2004 chegando à conclusão que, diferente do senso comum, não existiu perda nas balanças comerciais após a abertura econômica. Pelo contrário, o crescimento em exportações acaba por ser notório e em alguns casos supera o avanço das importações.

No caso da liberalização brasileira houve um avanço da participação no PIB de 7,5% para 9,1% em importações e de 8,1% para 9,7% em exportações. Apesar da variação, o impacto na balança comercial permaneceu exatamente o mesmo: 0,6%.

As explicações para o avanço paritário se baseiam tanto na melhoria dos termos de troca como no crescimento induzido do comércio internacional, gerando, além das importações, um acréscimo na demanda internacional por produtos brasileiros.

Em um segundo estudo[2] publicado pelos economistas Yuko Kinoshita (FMI) e Nauro Campos (Brunel University) sobre as reformas estruturais, o resultado apresentado foi ainda mais notório.

Foram analisadas políticas públicas liberais como a redução de tarifas alfandegárias, privatizações e a solidificação das instituições públicas – prioritariamente referentes à justiça e ao setor financeiro – para se perceber que, apesar de sua impopularidade, foram estas que permitiram um menor impacto da crise internacional nos países emergentes.

A equação elaborada por eles identificou que tais reformas aumentaram o interesse de investidores externos em direcionar seus recursos para países como o Brasil, Chile e Estônia (que recentemente aderiu a zona do Euro). O resultado, quando comparado a nações mais fechadas como Argentina e Rússia, é notável.

Em relação à solidificação das instituições brasileiras, os cientistas políticos Fernando Filgueiras e Ana Luiza Aranha (ambos da Universidade Federal de Minas Gerais) promoveram estudo[3] publicado recentemente na Revista Dados (IUPERJ) onde afirmam que as reformas realizadas até o momento foram fundamentais no aprimoramento da gestão pública.

No entanto, alertam também que estas ainda não foram suficientes para resolver as deficiências em relação ao que chamam de “linha de frente da burocracia”, onde alegam que a falta de regulamentação de processos dá espaço para propinas e subornos. Os pesquisadores afirmam ainda que “a corrupção (…) é transparente ao público [mas] não é punida, não permitindo um processo substancial de responsabilização dos agentes públicos”.

Esta, no caso, é a maior barreira a ser enfrentada pelo atual governo federal. Em vésperas da realização de dois eventos internacionais de grande porte como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, é danoso perceber o impacto negativo gerado pelos escândalos consecutivos de corrupção no primeiro escalão da presidente Dilma.

Além da demissão, espera-se que a punição – embora impopular na comunidade governista – dê exemplo não só para os demais agentes públicos mas principalmente para a comunidade externa que, como o estudo de Kinoshita e Campos aponta, vê na corrupção um fator impeditivo para aumentar seus investimentos.

Resta-nos esperar para ver se o atual governo preferirá a popularidade política momentânea ou o sucesso gerencial de longo prazo que proporcionou aos emergentes os avanços estruturais e a qualidade de vida que temos hoje.


[1] “The Impact of Trade Liberalization on the Trade Balance in Developing Countries”, publicado em janeiro de 2008 como IMF Working Paper.

[2] “Structural Reforms, Financial Liberalization, and Foreign Direct Investment”, publicado no IMF Staff Papers, volume 57, em 2010.

[3] “Controle da corrupção e burocracia da linha de frente: regras, discricionariedade e reformas no Brasil”, publicado na Revista de Ciências Sociais DADOS, volume 54, número 2, em 2011.

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Até que o bolso nos obrigue

(Publicado também pelo jornal Correio da Notícia)

É interessante analisar o poder da imprensa e da sociedade civil na pressão pela aprovação de projetos ou pela tomada de novos rumos por parte dos governantes. A partir de uma análise mais profunda é possível perceber ainda que alguns projetos, como o fim da CPMF ou a aprovação da Ficha Limpa, nunca teriam ido adiante sem a manifestação popular. Podemos elencar ainda, partindo para uma análise sobre o papel da imprensa, a queda de seis ministros do Governo Dilma – sendo cinco por corrupção – sempre induzidas por pressões de veículos como a Veja e a Folha de São Paulo.

No entanto, percebe-se que tal pressão popular tem suas limitações. A história nos diz, e isto ocorre tanto no Brasil como no exterior, que mudanças drásticas só acontecem quando o órgão mais sensível do cidadão é afetado: o bolso.

Foi o caso do impeachment do presidente Collor após o bloqueio da poupança; do colapso da União Soviética após a bancarrota monetária; dos Estados árabes que, apesar da falta de liberdades individuais, acabaram por se rebelar apenas quando chegaram ao auge de sua crise econômica; e, no caso mais recente e caricato, com a saída de Berlusconi que, tendo resistido à todas as denúncias sobre corrupção e imoralidade, mostra sinais de fraqueza ao não conseguir aprovar seu novo pacote econômico.

Isso mostra que, apesar de querermos viver em uma democracia ética, temos como preocupação básica nosso auto-sustento. Sem salário – ou sem poupança – acabamos sendo motivados a tomar posições mais radicais que antes não passariam por nossa cabeça. No final das contas, até nosso sentimento democrático acaba ficando para a última hora…

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A Defesa da Safadeza

Confesso considerar o jornalista Reinaldo Azevedo um tanto radical. Mas gosto dele e, na maior parte das vezes, concordo com o que escreve.

Hoje, no entanto, ele se superou e escreveu exatamente o que eu já pensava em postar por aqui. Assim sendo, é claro, cedo o espaço para re-publicar o que também está neste link do site da revista Veja.

Reinaldo Azevedo (VEJA)

Vocês acompanharam a reação da canalha a soldo, que pratica aquela sordidez que pretende chamar de jornalismo. A reportagem da VEJA, diziam os vagabundos, não passava de uma conspiração para derrubar Orlando Silva. Tudo seria uma grande armação reacionária contra esses notáveis revolucionários do PCdoB.

Taí. O ministro foi demitido. MAS NÃO FOI DEMITIDO PORQUE A “VEJA” QUIS. FOI DEMITIDO POR SEUS ATOS À FRENTE DO MINISTÉRIO. Como bem disse Orlando Silva, quem nomeia e demite ministros é a presidente Dilma Rousseff.

A VEJA, como imprensa que se preza, faz o seu trabalho. Conta ao leitor aquilo que sabe desde que diga respeito ao interesse público.

Mas a revista também tem seus gostos, suas preferências, sim. Gosta de aplaudir, por exemplo, a boa governança; gosta de elogiar as iniciativas que levem à eficiência do serviço público; gosta das práticas que modernizam o estado; gosta das decisões de governo que se pautem pela responsabilidade fiscal e que repudiem a demagogia. Prefere, em suma, o Brasil que respeita a população àquele que concorre para a sua pobreza.

A corrupção surrupia dos brasileiros, estima-se, R$ 85 bilhões por ano. Ninguém em sã consciência e de peito aberto defende a safadeza, a sujeira, o malfeito, a pilantragem. Mas é preciso tomar cuidado com um tipo nem tão novo de corrupto, mas hoje muito influente: O CORRUPTO COM PEDIGREE IDEOLÓGICO.

Nas vezes em que VEJA noticiou malandragens praticadas por representantes de partidos ditos “conservadores” ou “de direita” — e foram tantas em 43 anos! —, nunca se acusou a revista de participar de algum complô ou de ter alguma intenção sub-reptícia. Basta que a denúncia atinja, no entanto, um medalhão da esquerda — ainda que seja essa esquerda que está aí: mais dinheirista do que propriamente ideológica —, então surgem os justificadores da ladroagem, tentando revesti-la de resistência democrática.

Não falo em nome da revista. Não tenho mandato pra isso. Falo em nome de uma cultura, que distingue o interesse público do interesse privado. VEJA continuará a aplaudir as iniciativas dos governos e dos governantes em favor do Brasil e dos brasileiros e continuará a denunciar aqueles que, sob o pretexto de defender o bem público, lutam apenas em favor de seus próprios interesses.

A safadeza, está provado, nao tem ideologia. Mas a defesa da safadeza tem.

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Uma aula de Santo Agostinho

Confesso ser tendencioso quando o assunto é Santo Agostinho. Estudei em um colégio da Ordem Agostiniana Recoleta por nove anos, sou tocado até hoje pelo que li em suas “Confissões” e me inspirei no título de um de seus livros para dar nome a este blog (De Libero Arbitrio).

Assim sendo, foi difícil resistir a tentação de assistir ao filme Agostinho – O Declínio do Império Romano (Sant’Agostino, 2010) quando o descobri. Produzido em inglês por Christian Duguay e lançado na Itália em 31 de janeiro de 2010, o filme se inicia nos últimos dias da vida de Santo Agostinho e retrata, por meio de lembranças, momentos como sua ascensão política em Roma, sua conversão e, no retorno a Hippo, o debate com os Donatistas.

Para os que tiverem a oportunidade de assistir, recomendo esta aula sobre fé, política, oratória e história do Império Romano.

Segue o trailer em inglês:

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Mobilização civil: como, quando e por quê?

(Publicado também no Jornal do Brasil)

Acredito na mobilização da sociedade civil como fator primordial para a promoção de mudanças. Cheguei a apresentar um artigo no exterior sobre o tema, intitulado “When civil society changes the world”, tratando da importância dos atores não governamentais na implementação de novas pautas para a governança. A questão é simples: a delegação de representatividade é feita durante as eleições mas certas vezes – ou quase sempre – é interessante re-lembrar aos eleitos o que esperávamos quando demos o nosso voto.

Tal mobilização pode ocorrer de várias formas passando da organização de grupos de interesse – como ONGs, think tanks, sindicatos, associações ou partidos políticos – até a mobilização de passeatas ou movimentos coletivos em mídias sociais.

Em ambos os casos, no entanto, o índice de sucesso é baixíssimo.

Façamos uma breve análise sobre os grupos de interesse. Quanto já se ouviu e ainda se ouve do uso de ONGs para lavagem de dinheiro público? Quantos nomes diferentes vocês já viram circular pela internet ou nos jornais uma vez ou outra e nunca mais tiveram notícia? O número de organizações que surgem motivadas a promover alguma mudança – mesmo que seja no próprio bolso de seus idealizadores – é absurda e chega a ser alvo de restrição regulatória em países como a Austrália.

Por outro lado, o sucesso das poucas que se destacam é notório e compensa a existência do setor. Foi a Human Rights Watch quem fez a diferença no Norte da África enquanto a Amnesty International conseguiu a liberação dos presos políticos cubanos. Tudo isso enquanto chefes de Estado brigavam entre si e nada conseguiam…

Em termos de mobilização popular, quem não sente arrepios ao lembrar das “Diretas já!” ou do “Fora Collor!”? Puxando para os dias de hoje, quem esperava ver manifestações tão volumosas na Espanha e na Inglaterra?

O poder de uma idéia bem difundida é tão forte quanto qualquer processo eleitoral e diferencia claramente o potencial das democracias em relação aos regimes onde há restrições na liberdade de expressão.

Aliás, com a Primavera Árabe, até as ditaduras tem se sentido ameaçadas…

Na Bielorrússia, por exemplo, o presidente – e proto-ditador – passa maus bocados ao tentar se manter no poder. Ao ver manifestações consecutivas, proibiu que falassem mal do governo. A resposta foi imediata: manifestantes passavam a se reunir de forma criativa promovendo, entre outros, toques coletivos de celular. O governo, temeroso, proibiu que grupos maiores de cinco pessoas andassem juntos e redobrou seu cuidado com as mídias sociais. Vale acompanhar qual será a próxima reação dos indignados.

Aqui no Brasil, no entanto, as mobilizações continuam pequenas e tem levado às ruas números não superiores a 30 mil pessoas. A jornalista Dora Kramer, em artigo ao jornal Estado de São Paulo, justifica o fracasso parcial com a falta de um organizador institucional.

Discordo. Vamos ao exemplo egípcio: a indignação contra o governo era geral. Oposição, grupos não-governamentais e cidadãos sentiam os reflexos da falta de liberdade de expressão, mas foi um jovem anônimo que, através de um evento criado no Facebook, conseguiu mobilizar a população contra o governo.

Criou o evento, convidou seus amigos e acabou parando em diversos blogs de ativistas locais. A idéia, que já era um senso comum, ganhou adeptos e se transformou em uma manifestação que, devido à repressão do governo, foi veiculada por todas as partes dando notoriedade ao fato. A partir daí o caminho estava criado para a realização de mais e mais manifestações, garantindo o apoio de todos os grupos de oposição – partidários ou não – e, logo então, das organizações internacionais.

Na Espanha, a geração foi ainda mais natural, sendo iniciada por um evento no Facebook que, sem se fazer notar, levou milhares às praças das principais cidades do país. A multiplicação do número de participantes, no entanto, não se deu inicialmente pela mídia mas sim pelo Twitter, onde jovens multiplicavam o que acontecia e chamavam ainda mais participantes para os grandes centros. O tema? A indignação coletiva, sem especificações: cada um protestava contra o que quisesse.

Há quem diga, sobre caso espanhol, que houve sim um organizador: o grupo radical Democracia Real Ya, que acabou se identificando como autor das mobilizações logo depois de seu sucesso. Desafio, então, que apontem os membros e o projeto estratégico que levou às ruas tanta gente. Oportunistas existirão sempre, mas nenhum se sustenta na ausência de provas.

Voltando para o caso brasileiro, percebemos que o ponto de partida foi dado com a criação dos eventos no Facebook. E daí já se gera o primeiro problema: cada um, na intenção de ser mais popular que o outro, resolveu criar seu próprio evento. Dividiram o público e nenhum ficou tão popular.

O segundo erro: proibiram a participação de partidos políticos. Ora essa! Se existem partidos contra a corrupção, por que seus filiados não podem se expor? O crime passara a ser não o abuso do poder mas a participação política. E se de cara os participantes já repelem quem é politicamente ativo, não é de se esperar grande sucesso.

O terceiro: a falta de criatividade. Não é de se esperar que um milhão de jovens levante às oito horas da manhã em um feriado para dizer não à corrupção em uma marcha monocromática. Espera-se, por outro lado, que eles estejam aos montes à tarde em um festival de rock para se divertir, cada um ao seu jeito. Por que não fazer dos dois um só? Por que não mobilizar de uma forma divertida, engraçada, para um horário e local onde já exista propensão a ir? Ou, por exemplo, você acredita que recentemente jovens se reuniram nas ruas dos Estados Unidos apenas para comemorar o assassinato de Osama Bin Laden? Não! Foram para comemorar, sim, mas também para se divertir, ver gente, socializar. E para isso, necessita-se de criatividade e de um empenho maior nas redes sociais também durante os eventos e não só em suas pré-convocatórias.

Por fim, falta credibilidade. O projeto Ficha Limpa deu certo por que os atores não-governamentais se aproveitaram da mobilização popular e deram a ele, por meio da conquista dos meios de comunicação, um tom que fazia a todos crer que aquilo era realmente possível mesmo indo contra todos os caciques políticos do país. Cito, neste ponto, a própria jornalista Dora Kramer como exemplo. Falou da importância da mobilização, criticou seu fracasso e afirmou ser necessário que se façam novas e novas manifestações do tipo. Mas… Será que ela mesma participou? Duvido. E, além da imprensa como pessoa física e não jurídica, os demais grupos de interesse? Será que estavam por lá? Também não os vi.

A mobilização da sociedade civil acontecesse sim – e também – de forma espontânea mas, uma vez iniciada, passa a demandar atores mais ativos e menos sectarismo para tomar expressão. Acredito no amadurecimento progressivo dos ativistas e na viabilidade de se constituir novas manifestações que façam a diferença tanto quanto fizeram as “Diretas já!”, o “Fora Collor!” e o projeto Ficha Limpa.

O tema? Pode ser a própria marcha contra a corrupção. Mas sugiro algo mais concreto: o fim do voto obrigatório. O projeto já foi proposto…

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Um nome repetido e quinze minutos de diversão

Não costumo fazer isto, até por ter um Blog com temática diferente, mas uma situação me chamou tanto a atenção que resolvi transformá-la em uma postagem.

Nesta manhã de segunda-feira fui adicionado em meu MSN por um e-mail corporativo referente a reparos eletrônicos. Vou chamá-lo de forma fictícia de José S/A a fim de preservar seu anonimato.

Percebam ainda que, na conversa relatada logo abaixo, não corrigi erros gramaticais para que vocês, leitores, tenham o mesmo sentimento que eu tive.

Entendo que, pelo conteúdo copiado, não precisarei tecer quaisquer explicações sobre a causa que me fez fazer esta postagem.

Divirtam-se!

José S/A says
ola sr joao
boa tarde

João Victor Guedes says
boa tarde! tudo bem?

José S/A says
tudo
achei voce no mercado livre
tem algum problema agente conversa ´por aquii/

João Victor Guedes says
mercado livre?

José S/A says
voce nao tem placas de eco par a vendas?
voce trabalha com vendas de componentes eletronicos para px e outros radios transmissores?

João Victor Guedes says
não…

José S/A says
presciso de uma lista de componentes

João Victor Guedes says
você pegou o email errado, meu caro

José S/A says
entao joao vito guedes nao e voce?

João Victor Guedes says
meu nome é joão victor guedes, mas acredito que existam outros no mundo rs

José S/A says
sobre nome igual?
voce e radio amador?

João Victor Guedes says
não
você não quer me convencer de que sou uma pessoa que não sou, né? rs

José S/A says
pera i vou envia link do mercado livre
http://produto.mercadolivre.com.br/(…)
nome desse cra i que esta vendendo o matterial e joao victo guedes
eugravei por que conheço um joao vitor ma e canuso aqui na cidade
po manu
to prescisando da cam de eco
nao ta dando certo

João Victor Guedes says
eu acredito, meu caro. mas nome não é CPF. as vezes se repetem…

José S/A says
seu emaill peguei em um blog com eesse nome
mas nao e de ser na da

João Victor Guedes says
sim, tenho um blog com meu nome. mas não moro em andradina (como o mercado livre informa), nem mexo com rádio…

José S/A says
pe na tabua e bola pra frente
entao fica liga daqui a pouco aparece contas para voce pagar
ai pra cinma tem muito dessas coisas
awe
tenha uma boa tarde
boim trabalho
ate breve
vo da uma investigada
sem mais
atenciosamente
José S/A
desculpe a pergunta
pelo kque li no blog voce e militante do pt?

João Victor Guedes says
quase. do Democratas.

José S/A says
e to fora
tenha boa sorte

João Victor Guedes says
obrigado.

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Uma hora de desenvolvimento econômico sob a ótica liberal

(Publicado também no Instituto Millenium)

Alguns poucos meses depois de graduado, tive a honra de retornar à Universidade Federal de São João del-Rei como convidado do professor Ivis Lima e do quase economista PHD Pereira para participar de uma de suas aulas da disciplina de Desenvolvimento Socioeconômico. A missão era a de explicar para a turma do quarto período de Ciências Econômicas a ótica liberal sobre o desenvolvimento.

Como o período de uma hora e meia me limitava à resumir as principais idéias, resolvi tratar dos conceitos liberais de forma aplicada às realidades do indivíduo, da história econômica brasileira e da economia mundial.

Antes de começar, no entanto, fiz uma breve explicação – bem generalista – sobre o que representava cada uma das correntes liberais: o social-liberalismo, que prega liberdades sociais em paralelo ao intervencionismo estatal; o liberalismo clássico, que afirma não ser possível existirem liberdades individuais caso não exista a liberdade econômica plena; o neoliberalismo, uma espécie conservadora dos liberais formados pela Escola Monetarista; e o libertarianismo, derivado da Escola Austríaca de Ludwig Von Mises que coloca o Estado em uma esfera secundária ou desnecessária para a evolução da economia e do indivíduo. A minha narrativa se pautaria por um meio termo entre esta última corrente e o liberalismo clássico.

Basicamente, levantei que o embrião do liberalismo, bem como o da maioria das correntes políticas e econômicas, havia sido derivado da moral cristã. Seu primeiro autor fora Santo Agostinho a partir do livro “Livre Arbítrio” onde afirmou que, apesar da existência dos dez mandamentos, o indivíduo era livre para optar pelo que fazer. O cidadão poderia, por exemplo, cobiçar a mulher do próximo que, mesmo assim, a Igreja não poderia impedi-lo ou puni-lo. Isto caberia a Deus em seu julgamento final que o levaria para a vida eterna no Céu ou não.

Em termos de liberais, a questão era semelhante: aqueles que ferissem a moral da comunidade estariam automaticamente se excluindo, não pela reclusão promovida pelo Estado, mas pelo preconceito gerado pela sociedade. Alguns exemplos são bem simples e se aplicam ainda hoje: os conhecidos por não honrar suas dívidas não teriam mais crédito no mercado; os cidadãos não violentos evitariam o convívio com os assassinos.

Além da questão social, Santo Agostinho acabou ainda por dar o tom do que seria a teria dos libertários sobre a taxação. Afirmou que, seguindo a ótica do livre arbítrio, a bondade e a filantropia deveriam ser espontâneas uma vez que, caso impostas, perderiam seu caráter de benevolência.

A aplicação deste discurso à sociedade atual coloca os impostos como uma contradição à liberdade do indivíduo. Obriga-se, utilizando o caso brasileiro, a ceder 47% do suor do trabalhador para que o Estado faça filantropia, ao invés de permitir a cada um que escolha como melhor deve gastar – ou distribuir – seus recursos.

O resultado é trágico: de um lado, a responsabilidade individual sobre o meio dá espaço à busca infinita pela sonegação e pela contestação ao papel do Estado; do outro, a corrupção e o aparelhamento político que, independente do partido governista, geram uma maquina burocrática que acaba por fazer tal recurso valer menos de um terço daquilo que seria na mão do indivíduo.

Entender isto é fácil: para tomar o dinheiro do trabalhador, o Estado precisou construir e contratar entidades financeiras para cobrar e gerir; políticos e casas governamentais para definir normas; escolas, professores, médicos e hospitais para gastar, fiscais para tomar conta do processo; e mais uma série de profissionais intermediários que nunca teriam existido caso o dinheiro fosse gasto diretamente pelo indivíduo.

Este fenômeno fora identificado séculos depois por Thomas Hobbes em seu “Leviatã”, onde narrou o crescimento de um monstro, figura representativa do Estado, que se, sob a desculpa da segurança e ordem, tornava-se tão grande à ponto de não se poder viver sem ele.

Daí, podemos voltar mais uma vez para a ótica do indivíduo a fim de entender a raiz do problema. A sociedade, bem como qualquer organismo ou instituição, é formada por indivíduos e não por um coletivo. Quando pensamos, por exemplo, em um partido político como corrupto, estamos cometendo um equívoco: a instituição não comete atos ilícitos, quem o faz são seus filiados, de maneira individual ou pela soma do trabalho de indivíduos. O mesmo, neste caso, ocorre com o Estado que, composto por indivíduos, é incapaz de ser totalmente honesto ou, em uma suposta benevolência, é incapaz de deter o conhecimento absoluto para afirmar com propriedade quais sãos os melhores caminhos a se tomar – até mesmo na definição do que é ou não estratégico para a sociedade, já que tal decisão depende de valores individuais e varia de cidadão para cidadão.

No final, o que acabamos por criar é uma “super classe” de indivíduos que possui poderes místicos para afirmar como o dinheiro de cada cidadão deve ser gasto. É a isso que o liberalismo se opõe.

E foi isso que vimos durante o último século da economia brasileira. Tomando por base a pesquisa do nacional-desenvolvimentista Celso Furtado sobre a formação econômica do país, podemos perceber claramente que nosso desenvolvimento inicial foi orientado pelas práticas agrícolas que permitiram tanto a acumulação de capital por conta dos produtores como a formação de um mercado auxiliar criado voluntariamente para suprir as demandas das famílias residentes – incluindo uma gama de oferta que variava desde o comércio de roupas até a prestação de serviços de beleza.

Tal acumulação se deu de forma mais acelerada na região hoje ocupada pelo estado de São Paulo, por conta das condições climáticas e de solo que favoreceram a produção cafeeira – que já era a mais rentável do continente. Pouco à pouco, com a percepção de que o mercado mundial passava por uma aceleração da agregação de valores industriais, os produtores paulistas passaram a investir o acúmulo de suas receitas no desenvolvimento da agroindústria, agregando valores à sua produção e aumentando a oferta de bens e serviços para a população local. Tal processo garantiu o desenvolvimento do estado que, até hoje, se coloca como mais avançado do país.

No entanto, o problema veio na década de trinta quando um político, humano como nós, decidiu que estratégico seria endividar o país para gerar industrias para as quais não tínhamos nem maquinário, nem mão de obra, nem tradição produtiva. Getúlio Vargas, o então presidente, rasgou a cartilha de David Ricardo sobre as vantagens comparativas e instituiu o primeiro processo de substituição de importações que equipou o país com maquinário ultrapassado – pois era o máximo que era os empréstimos permitiam comprar –, endividou o país – aumentando a inflação que já era alta – e não conseguiu reduzir a dependência pelas importações.

Após alguns poucos anos, um novo presidente contraiu em cinco anos as dívidas de cinqüenta, com a finalidade de promover um segundo processo de substituição de importações e de construir uma cidade, a partir do zero, no centro geográfico do país. As conseqüências foram drásticas.

Desconsiderando o fator político de se tirar a capital do país de seu centro cultural para levá-la a uma região onde se demoraria, no mínimo, doze horas de ônibus para se promover manifestações, tracei alguns paralelos com demais países.

Levantei o caso da Rússia, super desenvolvida no entorno de Moscou e São Petersburgo que acabam por receber uma migração massiva da região leste do país – hoje sub-habitada. A proposição do presidente Medveded, hoje considerada absurda por todo o mundo, foi a mesma de Juscelino Kubitschek: construir, do zero, oito grandes cidades no leste russo.

Por outro lado, tínhamos o argumento da segurança nacional, sendo o centro geográfico do país mais seguro para a nossa capital. Seguindo esta ótica, a capital dos Estados Unidos seria no Texas e, por falta de opção, a de Portugal passaria para a França.

Tal estratégia econômica além de não desenvolver a região central do país acabou por endividar ainda mais a nação, criando mais problemas cambiais e promovendo mais um avanço inflacionário.

Durante o regime militar o cenário não foi diferente. Vimos Delfim Neto, um economista brilhante, promover políticas econômicas de toda a variedade heterodoxa ao mesmo tempo em que multiplicava o gasto público e o número de empresas estatais. O resultado foi um crescimento econômico imediato que deixou cicatrizes ainda maiores: mais endividamento, mais inflação, mais crise cambial e mais desigualdade social.

A resposta, felizmente, veio de fora: o Consenso de Washington definiu que não haveria mais crédito para estimular o endividamento infinito das economias desenvolvimentistas e que cada centavo deveria ser utilizado para garantir a estabilidade econômica. A partir daí, os “estrategistas” brasileiros teriam de buscar outra alternativa.

Na redemocratização foi o que acabou por acontecer e, por alguns poucos anos, os liberais acabaram por se ver representados. O primeiro deles, Fernando Collor de Melo, teve graves problemas com corrupção mas, antes de sofrer o impeachment, proferiu um discurso que mudou as bases econômicas do país. Ao dizer que “os carros brasileiros mais pareciam carroças”, evidenciou o problema de se pagar por um Fusca no Brasil o que se pagava por um Mercedes-Benz na Alemanha e, como solução, baixou tarifas alfandegárias e impostos para abrir a economia do país.

Seu vice, Itamar Franco, trabalhando em conjunto com o ministro Fernando Henrique Cardoso, que viria a governar o país por oito anos, deram continuidade as reformas: reduziram a máquina pública, cortaram os gastos governamentais e aumentaram a taxa de juros, promovendo uma contenção de demanda que, aliada ao avanço da oferta de bens importados, acabou por conter a inflação a partir do chamado Plano Real.

A teoria sobre a fórmula da estabilidade era simples: a inflação de demanda seria cortada por um mix entre a contenção da demanda com a expansão da oferta, ao mesmo tempo em que se reduzia o tamanho do estado dando mais espaço para que o mercado buscasse seu equilíbrio de forma autônoma. E deu certo: a inflação foi contida, a economia se estabilizou e a qualidade de vida do cidadão aumentou.

Logo após vieram Lula e Dilma que, apesar de no início manter as linhas gerais estabelecidas por FHC, acabaram por mudar estruturalmente seu modelo econômico: aumentaram o gasto governamental e, como não haviam mais empréstimos internacionais, estabeleceram duas medidas. A primeira, imprimir moeda, foi pelo gargalo, obrigando o Estado a aumentar ainda mais a carga tributária – tomando, por exemplo, o mais que recente caso da elevação do IPI para carros não produzidos integralmente no Brasil.

Sem me aprofundar na análise aos governos Lula e Dilma, uma vez que não teriam explicação diferente ao nacional-desenvolvimentismo que já vivemos, entramos na temática do IPI, que acabou por despertar a atenção de alguns presentes.

O protecionismo, além de não estimular o crescimento da industria nacional, gera uma guerra fiscal no mercado internacional e prejudica toda a economia local. A fórmula é simples: se o preço dos carros estrangeiros se elevar, por exemplo, 30%, seus concorrentes nacionais elevarão seus preços em 25% e ainda assim terão a vantagem comparativa. O palco para a inflação estará armado e, pior: a parcela de renda que poderia ser distribuída entre outros consumos acabará comprometida pela elevação do gasto com automóveis.

A má notícia, após este cenário todo, é que ocupamos hoje a 102ª posição no ranking da liberdade econômica – lançando neste mês pelo Instituto Fraser – estando atrás de países como a Rússia (pós-URSS) e o Haiti. A boa notícia, no caso, é que ainda estamos na frente de Malaui e Zimbábue.

Inserido neste cenário de massivos investimentos públicos o Brasil acabou por não sofrer a crise mundial como as economias européias. Isso é fato. Mas também é verdade que os recursos no Estado não existirão para sempre e, mais cedo ou mais tarde, entraremos em uma recessão semelhante ou pior às de Portugal, Grécia e Irlanda… Com uma infeliz diferença: somos grandes demais para sermos salvos.

O que vemos lá fora, com os aportes de recursos internacionais, é que o caminho tomado é diferente do histórico brasileiro: ao invés de gastar mais e mais, os Estados em crise estão contendo seus investimentos e dando mais espaço para o mercado, enquanto utilizam o endividamento para substituir impostos neste período de transição para uma economia liberal.

Vendo tudo isso, percebemos que Keynes fez um brilhante trabalho ao escrever sobre os benefícios do endividamento Estatal. Infelizmente, para governos e cidadãos, não terminou sua tese ensinando a pagar a dívida.

Encerrei minhas palavras dizendo que as escolas monetária e austríaca trabalham exatamente em cima disso e, para os interessados em conhecê-las melhor, sugeri três blogs: danieljmitchell.wordpress.com – em inglês, sobre a economia americana e fatos sobre o mundo –,rodrigoconstantino.blogspot.com – com análises liberais sobre a economia brasileira – e o meu, www.joaovictorguedes.com.br, com um pouco de cada.

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O Maior Desafio da Juventude Árabe

(Publicado também no Instituto Liberdade)

Após derrubar ditadores no Egito e na Líbia e obrigar governos conservadores a adotar reformas liberais, os jovens árabes devem ter em mente que seu caminho para uma sociedade mais livre está apenas começando.

Fizeram, por meio do que ficou por todo o mundo como Primavera Árabe, a maior revolução que se tem notícia desde que entramos na Era da Informação. Contagiaram jovens não só do norte da África e Oriente Médio, mas de todo o mundo. Foram os responsáveis pelas marchas dos Indignados na Espanha, manifestações no Reino Unido, passeatas no Brasil e mobilizações de tantos outros lugares. A partir de idéias e não de partidos ou políticos, sem recursos ou um planejamento de marketing profissional, mudaram o quotidiano mundial.

Ensinaram ao mundo que um movimento de verdade se faz com dois pilares principais: mobilização e informação.

Construíram, pela internet, uma rede de contatos que viabilizou passeatas de milhares e utilizaram os veículos internacionais de comunicação de forma brilhante, relatando de forma direta o que sofriam, como queriam viver e o que fariam para tal.

Contagiaram os organismos internacionais que, verificando a dedicação dos manifestantes, deram ainda mais credibilidade ao movimento, aumentando ainda mais sua rede de contatos. Tais organismos passaram, a partir daí, a globalizar suas informações e mobilização. A comunidade mundial foi cativada.

Ganharam a mídia e o coração dos cidadãos de todos os cantos do planeta e, como política se faz pela representação dos sentimentos individuais, acabaram por obrigar que políticos de todo o mundo os apoiassem em uma jornada das Nações Unidas e da OTAN pela paz e democracia no mundo árabe.

Venceram a guerra na Líbia, derrubaram o ditador egípcio, conquistaram reformas liberais no Marrocos, na Tunísia e tantos outros e ainda caminham para novas vitórias. Tudo fruto da união e do sonho pelo respeito aos direitos humanos.

Apesar de tanta luta, terão somente agora o maior desafio de suas vidas: fazer com que toda essa mobilização não se perca na construção do futuro de seus povos.

Derrubar ditadores e promover reformas não é suficiente. De nada adianta a queda de Mubarak no Egito se os militares, empossados desde então, continuam a promover o controle sobre a imprensa. De nada adianta a vitória rebelde na Líbia se o próximo governo permanecer no poder por novos 40 anos.

A juventude árabe deve continuar unida, mobilizada e aproveitando a credibilidade atingida para munir o mundo de informações. Deve dedicar ainda mais esforços agora para aproveitar o vácuo político criado para construir regimes democráticos que honrem mortos e feridos.

Precisam pensar, planejar e dar ao mundo novamente o exemplo de que não importa quão mal esteja o cenário, sempre há solução para os que se unem e colocam idéias na frente de pessoas.

Cabe à comunidade internacional, na sua parcela de responsabilidade pelo mundo globalizado, não se esquecer das vidas perdidas e do objetivo nobre deste povo que arriscou tudo o que tinha pelo direito à liberdade.

Devemos, a partir deste exemplo de democracia, refletir e definir em que tipo de mundo queremos viver.

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